Crime e violência disparam como principal preocupação no Brasil
A edição de novembro do Ipsos What Worries the World traz um movimento raro pela intensidade: a preocupação com crime e violência saltou 12 pontos percentuais em apenas um mês e atingiu 52%, o maior patamar registrado no Brasil em 2025 e a maior desde novembro de 2018.
A segurança pública está no centro absoluto das angústias do país. Trata-se de um crescimento brusco, mas não imprevisível: o dado reflete o impacto direto da grande operação deflagrada no Rio de Janeiro contra o crime organizado, que expôs de maneira explícita a escalada dos confrontos entre facções e grupos paramilitares no estado. A dimensão da ação — com mobilização de forças federais, alto número de fatalidades, fechamento de vias e repercussão contínua na imprensa — amplificou a sensação de urgência e risco, ajudando a explicar a disparada da preocupação com violência neste mês. Esse tipo de operação, pela sua dimensão e pela narrativa de confronto, tende a amplificar a sensação de urgência e de risco.
Além disso, o debate público sobre criminalidade ganhou impulso adicional com dois fenômenos culturais que dominaram o streaming e as redes sociais nas últimas semanas: Tremembé (Globoplay) e Os Donos do Jogo (Netflix), séries que tiveram altíssima repercussão e audiência, e que explicitamente discutem criminosos brasileiros.
Tremembé revisita alguns dos crimes mais emblemáticos e midiáticos do país, aqueles que mobilizaram a opinião pública entre versões contraditórias, julgamentos sociais atrelados ao noticiário e discussões sobre o funcionamento das instituições de justiça. A série expõe como o Brasil construiu, ao longo das décadas, uma cultura de acompanhamento quase ritualístico dos grandes casos criminais, e como isso molda a percepção coletiva de insegurança.
Já Os Donos do Jogo aborda a face estrutural do crime organizado, revelando suas engrenagens econômicas, disputas territoriais e o impacto direto das facções na dinâmica das grandes cidades. Quando essas duas narrativas — o crime que vira espetáculo e o crime que governa territórios — ocupam simultaneamente o centro da cultura pop, o tema extrapola o noticiário policial e invade conversas cotidianas. Esse alinhamento entre entretenimento, mídia e política intensifica a sensação de risco, e o resultado aparece nos dados: crime e violência não só lideram as preocupações nacionais, como se distanciam dos demais temas por uma margem inédita no ano.
Logo após crime e violência, o ranking das preocupações mostra movimentos importantes. Pobreza e desigualdade social aparecem em segundo lugar, com 38% (+5 p.p.), refletindo um debate cada vez mais acentuado sobre condições de vida e distribuição de renda. Aqui, vale ressaltar a visibilidade do aumento do limite para isenção do Imposto de Renda, cuja aprovação foi impulsionada sob argumento de distribuição de renda e redução da desigualdade.
Em terceiro lugar vem a saúde (36%, +3 p.p.), impulsionada pela visibilidadede campanhas recentes de saúde, como Setembro Amarelo (saúde mental), Outubro Rosa (câncer) e Novembro Azul (Saúde Masculina), muitas vezes acompanhadas de campanhas publicitárias públicas e de marcas. Já a corrupção financeira e política, apesar de ainda ocupar lugar entre os grandes medos, caiu para 34% (–5 p.p.), possivelmente refletindo uma leve trégua nas manchetes ou uma mudança na atenção pública depois de meses de escândalos intensos. Há uma hipótese de que escândalos recentes, como Banco Master e Grupo Fit, por exemplo , possam provocar o crescimento dessa preocupação, o que confirmaremos na próxima onda do estudo.
Por fim, os impostos recuam para 25% (–4 p.p.), o que pode indicar um esfriamento das discussões tributárias no noticiário, ainda que debates sejam intensos sobre justiça fiscal, justamente quando o IR mínimo pode sofrer ajustes para beneficiar os de renda mais baixa.
Nos Estados Unidos, o salto de 5 pontos na preocupação com a saúde reflete muito mais do que uma crise sanitária: ele traduz a angústia de uma população que convive com inflação persistente, custos crescentes de serviços médicos, planos de saúde e medicamentos. Ao mesmo tempo, a inflação continua sendo a ansiedade número 1 dos americanos, um combo que pesa no orçamento e alimenta o pessimismo.
Na França, o aumento de 9 pontos na preocupação com os impostos revela que o cidadão sente diretamente o peso das políticas fiscais e não acredita no rumo do país: 91% afirmam que a França está no caminho errado. Esse descontentamento institucional é sintomático de uma insatisfação mais profunda com o modelo de Estado e a redistribuição de renda.
Já na Argentina, o panorama é paradoxal, e por isso tão revelador: a violência se intensifica (+9 p.p.), mas, ao mesmo tempo, a parcela que acredita que o país está no rumo certo sobe para 59%. É como se parte da população enxergasse nas reformas econômicas de Milei uma oportunidade para domar o crime e retomar um certo controle, mesmo que isso venha acompanhado de riscos claros.
No fim, o que o estudo revela é um cenário global em que preocupações mudam rápido e refletem tensões profundas, da violência no Brasil ao peso da inflação nos EUA e ao cansaço institucional na França. Ler esses movimentos é fundamental para compreender o humor social e a disposição das pessoas diante do futuro.