95% das mulheres cearenses temem sofrer violência e a impunidade dos agressores o fator que mais contribui para a insegurança

Levantamento "Mulher Coragem", realizado pela Ipsos-Ipec em parceria com o Diário do Nordeste e o Instituto Patricia Galvão, mostra que, apesar de se verem como batalhadoras, as cearenses alteram rotinas e vivem em estado de alerta, principalmente nos espaços públicos e no ambiente virtual.

A pesquisa intitulada “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança”, foi realizada entre 1 e 14 de outubro de 2025 como parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, encomendado pelo jornal ao Instituto Patrícia Galvão e executado pela Ipsos-Ipec, revela um panorama complexo e preocupante sobre a segurança das mulheres no Ceará. O instituto ouviu 2.032 mulheres de 77 municípios do estado e expõe uma dura realidade: embora 57% das cearenses se definam como batalhadoras, 50% como esforçadas e 49% como corajosas, 95% delas vivem com medo de sofrer algum tipo de violência.

A pesquisa identifica que o principal temor dessas mulheres é a violência sexual (assédio, estupro, importunação sexual), citada por 61% das entrevistadas. Este medo é ainda mais acentuado entre as mais jovens, alcançando 78% na faixa de 16 a 24 anos. Em seguida, aparecem o medo da violência física (47%) e da violência psicológica (43%).

Quando questionadas sobre os fatores que mais contribuem para a insegurança e a violência contra a mulher, a impunidade dos agressores lidera, sendo mencionada por 37% das entrevistadas. A percepção é seguida pela falta de policiamento (29%), pela cultura machista (28%) – que se destaca entre as mulheres de até 34 anos - e pelos vícios dos agressores em álcool ou drogas (27%).

Espaços de medo: a rua e a internet

A sensação de segurança varia muito conforme o ambiente. Enquanto o lar é percebido como o local mais seguro (83% se sentem seguras em casa), os espaços públicos são vistos como os mais perigosos. Apenas 10% das mulheres afirmam sentirem-se seguras no transporte público ou em pontos de ônibus, e 13% se sentem seguras na rua, em praças ou parques. O ambiente virtual também se consolidou como um território de risco: 56% das entrevistadas se sentem inseguras na internet, mesmo percentual daquelas que se sentem inseguras no transporte por aplicativo.

"A pesquisa nos mostra uma mulher cearense que se identifica como uma guerreira, uma força motriz para sua família e comunidade, mas que, paradoxalmente, vive em constante estado de alerta", afirma Patricia Pavanelli, diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec. "Essa força coexiste com uma realidade que impõe adaptações diárias, limitando sua liberdade e seu direito de ir e vir. Não é apenas um sentimento; é uma estratégia de sobrevivência que elas são forçadas a adotar."

Um raio-X dos medos em cada ambiente

A pesquisa detalha como a natureza do medo se transforma em cada espaço, revelando vulnerabilidades específicas:

  • Ambiente doméstico: Embora seja o local de maior segurança percebida, o medo da agressão física (37%) é o principal temor, especialmente para mulheres com até 44 anos. Em seguida, vêm o medo de assalto/invasão (28%) e de estupro (25%), este último mais temido por mulheres entre 25 e 34 anos.
  • Ambiente de trabalho: O assédio moral é o principal receio (40%); em outro patamar aparece o assédio sexual (33%) e a agressão física (32%). As mulheres de 16 a 34 anos são as que mais temem as situações de assédio sexual.
  • Ambiente educacional: O assédio sexual por parte de colegas (35%) lidera os temores, seguido pelo assédio moral (31%) e pelo assédio sexual por parte de professores/funcionários (28%); mais representativos entre as mulheres de 16 a 34 anos.
  • Ambiente virtual: O recebimento de mensagens indesejadas com conteúdo sexual (46%) - especialmente entre as mais jovens - e os golpes ou fraudes são as violências que mais afligem as entrevistadas. A perseguição ou stalking vem com 27% das menções, sendo mais expressivo entre as mulheres de 16 a 34 anos, chegando a 39% das respostas.
  • Espaços públicos (ruas, praças, parques): O medo de ser assaltada/roubada (52%) é o mais citado no geral. No entanto, para as mulheres com até 34 anos, o temor do assédio sexual e do estupro se sobrepõe ao de assalto.
  • Transporte público: Similarmente aos espaços públicos, o medo de assalto (59%) é o principal temor das mulheres cearenses. Contudo, o receio de assédio sexual (46%) e de estupro (46%) é quase tão presente e se intensifica entre as mais jovens.
  • Transporte por aplicativo: Neste ambiente, o medo de estupro (50%) é a principal preocupação, superando o receio de assalto, que é maior entre as mulheres com até 34 anos.

"O que este detalhamento nos mostra é que a violência de gênero é multifacetada e se adapta a cada contexto", pontua Patricia Pavanelli. "No espaço público, o medo é da violência imprevisível de um estranho. No trabalho e na escola, é o abuso de poder. No ambiente virtual, é a violação da intimidade que não conhece fronteiras. E no transporte por aplicativo, um serviço criado para facilitar a vida, o medo do estupro se torna a principal angústia. Isso demonstra que não há um refúgio; a mulher cearense precisa recalcular seus riscos a cada passo que dá, em cada ambiente que ocupa."

Rotinas alteradas e o silêncio das vítimas

 Como reflexo direto do medo ou insegurança por ser mulher, 40% das cearenses afirmam mudar sua rotina ou hábitos. A principal alteração é evitar sair sozinha, especialmente à noite (68% das que mudam a rotina declaram essa atitude). Outras estratégias comuns incluem mudar o trajeto para lugares mais movimentados (38%) e avisar alguém de confiança sobre seus deslocamentos (32%). Essa necessidade de adaptação é ainda mais acentuada na capital, Fortaleza, onde 48% das mulheres alteram suas rotinas por medo.

A pesquisa também revela um dado importante sobre a vivência da violência: uma em cada duas mulheres no Ceará (51%) já sofreu algum tipo de violência, com a psicológica sendo a mais relatada (28%), seguida pela física (16%) e sexual (15%). Nos últimos 12 meses, 20% das entrevistadas sofreram ou presenciaram algum tipo de violência.

Apesar da alta prevalência, a subnotificação é a regra, visto que somente 5% das mulheres fizeram alguma denúncia nos últimos 12 meses. Analisando apenas o grupo que sofreu ou presenciou violência nesse período, 83% permaneceram em silêncio. As principais barreiras para a denúncia são o medo de represália/vingança (44%), a dependência emocional (30%), o medo de ser desacreditada (29%) e a crença de que nada será feito (29%). Essa desconfiança no sistema é reforçada pelo fato de que 62% das mulheres consideram as medidas protetivas pouco eficazes, ao passo que16% as avaliam como nada eficazes.

"O silêncio de grande maioria das vítimas é ensurdecedor e revela falhas na rede de proteção", analisa Patricia Pavanelli. "A principal barreira é o medo da represália, alimentado por uma percepção de que as medidas são ineficazes, o que especialistas e dados oficiais mostrem o oposto. Isso cria um ciclo vicioso de impunidade e subnotificação, no qual a vítima se sente desprotegida e o agressor, empoderado. Romper esse ciclo exige não apenas canais de denúncia, mas a garantia real de proteção e celeridade da justiça."

Demandas por políticas públicas

Quando perguntadas sobre as medidas mais eficazes para diminuir o medo, as mulheres apontam para ações diretas do poder público. As principais demandas são: aumentar o policiamento nas ruas (56%), aumentar a segurança dentro do transporte público (36%) e capacitar agentes de polícia para o atendimento de casos de violência contra a mulher (29%). A responsabilidade por resolver o problema é majoritariamente atribuída ao poder público, principalmente o Governo Federal (62%) e o Governo Estadual (58%).

A pesquisa "Mulher Coragem" serve como um diagnóstico fundamental para a elaboração de políticas públicas mais eficazes e um chamado à ação para toda a sociedade no combate à violência de gênero no Ceará.

Sobre a Pesquisa

A pesquisa “Mulher Coragem, os medos e demandas das mulheres cearenses por segurança” faz parte do Projeto Elas, do Diário do Nordeste, realizado em parceria com o Instituto Patrícia Galvão e executado pela Ipsos-Ipec, com o patrocínio da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece).

O levantamento aconteceu entre os dias 1 e 14 de outubro de 2025, quando foram realizadas - de forma presencial - 2.032 entrevistas no total, distribuídas em 77 municípios, com mulheres de 16 anos ou mais que vivem no estado do Ceará. A amostra foi elaborada com base em dados do Censo 2022, PNADC 2023, com controle de cotas pelas variáveis idade, grau de instrução, raça/cor e ramo de atividade. O nível de confiança é de 95% e a margem de erro para o total da amostra é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.

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