Combate à crise climática: responsabilidade individual perde força em cinco anos
O novo relatório da Ipsos sobre pessoas e mudanças climáticas revela que, embora três dos últimos quatro anos tenham sido os mais quentes já registrados, o desejo individual de agir em relação às mudanças climáticas diminuiu em todos os 26 países pesquisados de 2021 a 2026. Em 2026, no Brasil, o percentual de entrevistados que concordam com a urgência de agir contra as mudanças climáticas para não falhar com as gerações futuras caiu 7 pontos percentuais, chegando a 70%. A maior queda foi registrada na Polônia (-29%). Globalmente, 61% do total de entrevistados global concorda que é preciso agir agora.
A mudança não reflete apatia, mas sim uma transferência de responsabilidade. “Os cidadãos estão, cada vez mais, buscando a liderança dos governos e das empresas, por entenderem que o peso da ação não pode recair apenas sobre os indivíduos. Nesse sentido, os dados nos mostram não uma história de indiferença, mas de exaustão e mudança de expectativas", afirma Priscilla Branco, Diretora de Opinião Pública da Ipsos no Brasil.
Globalmente, há uma forte percepção de que os países poderiam tomar medidas mais significativas. No Brasil, 71% acham que o país deveria fazer mais na luta contra as mudanças climáticas (59% na média global). Os Baby Boomers são os que mais concordam (77%) e a Geração Z é que tem o menor percentual (67%). As mulheres brasileiras também esperam mais do país em relação ao tema: 75% versus 66% dos homens.
No entanto, observa-se uma divisão marcante de atitude entre os países. Em nações de renda média, 71% acham que mais ações precisam ser tomadas, enquanto em países de alta renda apenas 53% compartilham dessa opinião, apesar de os mais ricos, historicamente, demonstrarem maior responsabilidade pelas causas das mudanças climáticas.
O relatório destaca também uma percepção de falta de liderança por parte dos governos em todo o mundo em relação ao problema. Poucos acreditam que seu país seja um líder mundial no combate às mudanças climáticas: em 31 países, 27% concordam que seu país se coloca como um líder mundial no tema, enquanto 34% discordam. No Brasil, que sediou no último ano a COP30 da ONU, 34% concordam com a afirmação e 31% discordam.
Os países do G7 não se saem melhor: apenas 25% acreditam que seu país está na liderança do combate às mudanças climáticas (35% discordam).
O relatório destaca uma divisão sobre a percepção de que há um plano governamental claro para combater as mudanças climáticas: 32% dos entrevistados afirmam que seus governos não têm um plano, contra 30% que acreditam na existência de um. No Brasil, 33% acreditam que há um plano claro.
O trilema da transição energética
A pesquisa também aprofunda as complexas atitudes do público em relação à transição energética, revelando um "trilema" entre custo, segurança e sustentabilidade. A ansiedade com o aumento dos preços da energia é uma preocupação massiva, expressa por 74% dos entrevistados em 31 países.
“A transição energética deixou de ser um cenário futuro e se tornou o principal desafio econômico e de segurança da atualidade. Desde choques recordes nos preços do petróleo até o aumento da demanda por eletricidade impulsionada pela inteligência artificial, as forças que estão remodelando os mercados globais de energia impactam simultaneamente famílias e economias”, analisa Priscilla.
Em 31 países, 55% acreditam que seu país deve priorizar a autonomia energética, mesmo a custos mais altos, para garantir a sustentabilidade de suas fontes de energia e sua independência no futuro – mesmo quando a acessibilidade financeira é uma grande preocupação.
Apenas 46% da população mundial confia que sua região terá eletricidade suficiente para atender à demanda futura, e as preocupações com interrupções não planejadas são altas em muitos mercados, 39% temem apagões no próximo ano.
A motivação para avançar em direção a uma política energética mais amigável ao clima enfrenta um dilema complexo. Exatamente metade (50% em 31 países) apoia que os governos priorizem preços baixos de energia, mesmo que as emissões aumentem. “Isso ressalta a tensão entre a ambição climática e as realidades econômicas das famílias, dado o aumento dos custos de energia”, afirma Priscilla.
A maioria dos entrevistados expressa preocupação com ondas de calor (63%), tempestades devastadoras (63%), secas (60%) e poluição do ar (59%) que podem ocorrer em suas regiões no próximo ano.
Metodologia
A pesquisa foi realizada pela lpsos em 31 países, por meio de sua plataforma online Global Advisor e, na Índia, em sua plataforma IndiaBus, entre sexta-feira, 23 de janeiro e sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026.
A lpsos entrevistou um total de 23.704 adultos com 18 anos ou mais na Índia, de 18 a 74 anos no Canadá, República da Irlanda, Malásia, África do Sul, Turquia e Estados Unidos, de 20 a 74 anos na Tailândia, de 21 a 74 anos na Indonésia e Singapura, e de 16 a 74 anos em todos os outros países.
No Brasil, a amostra consiste em aproximadamente 1.000 indivíduos. Os dados são ponderados para que a composição da amostra de cada país reflita melhor o perfil demográfico da população adulta, de acordo com os dados do censo mais recente.
A precisão das pesquisas on-line da Ipsos é calculada usando um intervalo de credibilidade, sendo que uma pesquisa com N=1.000 tem uma margem de erro de +/- 3,5 pontos percentuais e uma pesquisa com N=500 tem uma margem de erro de +/- 5,0 pontos percentuais. Para mais informações sobre o uso de intervalos de credibilidade pela Ipsos, visite o site da Ipsos.