COP 30 no Brasil: Com os olhos do mundo voltados para nós, a pauta da crise climática ganhará força no país?

"Desafios e Oportunidades: O Brasil no Centro das Decisões Climáticas"

Quando este artigo for publicado a COP 30 já terá acontecido. Os jornais e os especialistas em clima provavelmente terão falado sobre os desafios persistentes e a necessidade de metas de redução de emissões de gás que afetam o ambiente, da falta de comprometimento do governo brasileiro em apoiar uma agenda mais
firme de transição dos combustíveis fósseis, dos efeitos da saída dos EUA do Acordo de Paris ou das fragilidades infraestruturais de Belém, cidade-sede do evento. Ou de tudo isso junto e de outras coisas que não listamos aqui.

FUTUROLOGIA

Um exercício de futurologia, embora tentador, não nos ajuda a responder à pergunta que o título nos faz: agora que a COP passou, a pauta da crise climática continuará ganhando força no país? Qual será o legado que a COP deixará ao Brasil? Para responder a esta pergunta é preciso ir além do evento em si, - que é uma ocasião majoritariamente voltada aos especialistas e representantes de governos e do setor privado – e pensar no significado de se realizar uma COP no Brasil e em como a pauta ambiental é percebida pela população como um todo. 

Cabe sinalizar, além disso, que a escolha da cidade de Belém, localizada no coração da Amazônia brasileira, para sediar a COP 30, eleva o Brasil a uma posição de protagonismo sem precedentes no debate climático global. Essa localização estratégica não é meramente simbólica; ela coloca o bioma amazônico, crucial para a estabilidade climática mundial e lar de uma biodiversidade inestimável, no centro das atenções. O Brasil, país que abriga a maior parte da Floresta Amazônica em seu território (60%), tem a responsabilidade e a oportunidade de liderar pelo exemplo, demonstrando que é possível conciliar o desenvolvimento econômico com a conservação ambiental e justiça social.

Aliás, a importância do desenvolvimento sustentável é um dos raros consensos entre a população brasileira atualmente: 96% acreditam que o desenvolvimento sustentável é importante para o Brasil. Um dado irrefutável.

O avanço de uma agenda ambiental mais ambiciosa, no entanto, vai de encontro às tensões internas e externas dos diversos grupos de interesse presentes na sociedade. O país é um mosaico de interesses e visões sobre a sustentabilidade, que se refletem em debates acalorados e, por vezes, conflitantes. De um lado, movimentos da sociedade civil, representantes de povos originários e de setores progressistas defendem uma agenda ambiental ousada, com desmatamento zero, transição energética mais ágil e valorização da sociobiodiversidade. De outro, grupos com interesses econômicos arraigados em atividades de alto impacto ambiental, como a mineração ilegal, o agronegócio predatório e a exploração de combustíveis fósseis, resistem às mudanças e buscam flexibilizar a legislação ambiental. Tais tensões, embora perfeitamente cabíveis em um país democrático, travam o avanço de políticas mais alinhadas aos objetivos das COPs.

Enquanto governos nacionais, como a atual administração do Brasil, se comprometeram novamente a combater o desmatamento, eles enfrentam uma imensa pressão de poderosos interesses do agronegócio e de políticos em nível estadual que trabalham ativamente para enfraquecer as leis ambientais.

Somadas às tensões internas estão todos os demais problemas que são enfrentados pela população brasileira, além daqueles relacionados ao clima e à sustentabilidade. Em sociedades com tantos problemas estruturais como a brasileira – como saneamento, falta de moradia, violência – o caráter de urgência da crise ambiental e climática muitas vezes fica em segundo plano, apesar da completa interconexão entre os problemas ambientais e a economia, ou seja, está ligada à riqueza ou à pobreza.

Analisando os dados da pesquisa “What Worries the World”12, da Ipsos, de outubro de 2025, vemos que “Ameaças ao meio ambiente” e “Mudanças Climáticas” recebem, respectivamente, 12% e 11% de menções, cada, como os tópicos de maior preocupação no país.São tópicos que ficam abaixo dos temas que lideram o ranking: “Violência e Criminalidade” (41%), “Saúde” (37%) e “Pobreza e Desigualdade social” (36%).

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Autor(es)

  • Priscilla Branco
    Priscilla Branco
    Diretora de Public Affairs, Brasil
  • Tânia Cerqueira
    Tânia Cerqueira
    Diretora Sênior na Client Organization, Brasil
  • Nayara Teixeira
    Nayara Teixeira
    Especialista de Procurement, Brasil

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