Observatório de Tendências - 8ª Onda

Dia 06 de novembro, a Ipsos Brasil lançou a oitava onda do seu Observatório de tendências. O estudo vem acompanhando as movimentações nas tendências de comportamento e os impactos no consumo.

Observatório de Tendências - 8ª Onda

Autor(es)

  • Eduardo Trevisan Gerente de Pesquisa Qualitativa UU
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O olhar da Ipsos para tendências é o de enxergá-las como valores sociais: um reflexo da cultura e do contexto em que estamos inseridos e que transpassa as manifestações cotidianas – aquilo que vemos acontecendo nas ruas e na internet -  e que constitui o pano de fundo que norteia nossos comportamentos.

Quando olhamos para o papel do consumo na vida das pessoas e o formato que ele vem tomando nos últimos tempos, identificamos uma movimentação que destaca o espírito do tempo que vivemos: a Know Your Rights.

No decorrer das ondas do Observatório, observamos como a motivação de consumo muda de acordo com as tensões que prevalecem no contexto em que estamos inseridos. Partindo de uma realidade em que o consumo atua na construção da identidade dos indivíduos, acompanhamos algumas alterações na forma com que as preocupações que o mundo impõe alteram a relevância de alguns argumentos de posicionamento de marca.

Se voltarmos para o início dos anos 2000, por exemplo, a preocupação com a natureza e o meio ambiente crescia e, nesse contexto, vemos um consumo que começa a se preocupar com a sustentabilidade ecológica. Nessa época, vimos a manifestação do uso de materiais reciclados e reutilizados ganhar força até chegar ao patamar “mainstream “em que se apresenta hoje.

Já no início da década de 2010, acompanhamos as contestações sobre processo produtivo e a cadeia de produção. Imposta esta tensão, vimos uma crescente preocupação com a origem dos produtos, a ética no processo produtivo e o respeito à mão de obra que leva ao conceito “mainstream” de Fair Trade.

Nesta última onda que lançamos agora - olhando com maior enfoque para os últimos 3 anos - enxergamos um contexto que impõe muitos dilemas e contestações a um paradigma de segurança e progresso social que se apresentava nas últimas décadas. Nos anos 90 e 2000, víamos um mundo economicamente forte e socialmente progressista. A estabilidade econômica e financeira configurava uma sensação de paz global, o que influenciava um cenário de cooperação que reverberava em diversos âmbitos. A crise financeira que se desenrolou a partir de 2008 desestabilizou essas estruturas e pôs em cheque os pensamentos de progresso social, criando um “mood” global de retornos a antigos processos e de fechamentos generalizados.

Neste cenário onde tanto o avanço quanto o retrocesso se impõem como ameaças a parte da população, vemos crescer a demanda por um consumo que transpasse a barreira da consciência e transborde para a esfera do propósito. Tendo aquilo que se consome como algo que nos ajuda a projetar a imagem de como gostaríamos de ser vistos, ganham relevância as marcas que se posicionam frente aos debates travados pela sociedade, agregando um papel mais social ao seu posicionamento.

O uso do termo boicote, por exemplo, tem crescido nas redes sociais relacionado à ideia de deixar de consumir aquelas marcas que não condizem com as ideias e posicionamentos que o indivíduo defende. As menções apresentaram uma tendência de crescimento ano a ano, com um pico de 144% entre 2016 e 2017.

 

Fonte: Ipsos SMX + Sinthesio

Uma pesquisa recente realizada pela Ipsos para o 2º Fórum de Marketing Relacionado à Causa, em parceria com Cause, ESPM e Instituto Ayrton Senna demonstra com clareza o impacto desta tendência nos comportamentos de consumo. 77% dos respondentes esperam que as empresas de hoje contribuam muito mais para a sociedade do que contribuíam no passado. Esta mesma pesquisa indica que 82% dos consumidores se mostra favorável a uma empresa que contribui para uma causa:

Favorável a uma empresa que contribui para uma causa? (%)

 

O novo cenário agrega mais complexidade às estratégias de marcas e produtos. As preocupações de ontem com sustentabilidade ecológica e responsabilidade pela cadeia produtiva começam a ser vistas como algo que é parte do que de mais básico uma empresa possa oferecer.

Para que marcas e agências consigam desenvolver estratégias de força no futuro, devem começar a repensar a forma como enxergam o seu propósito – agregando a faceta social ao que hoje é lido como a missão da empresa – e elaborar qual o papel que desejam desenvolver como atores de peso na sociedade. Essa demanda por marcas que tenham alinhamento com o propósito individual de quem a consome sem dúvida irá crescer, e daqui para a frente a tendência é de que o silêncio do não se posicionar seja visto como um posicionamento em si. Agora cabe a nós refletir: qual o papel que eu quero que a minha marca tenha além dos produtos e serviços que ofereço?

Autor(es)

  • Eduardo Trevisan Gerente de Pesquisa Qualitativa UU

Sociedade