Segurança pública lidera preocupações dos brasileiros
A edição de outubro do Ipsos What Worries the World mostra uma mudança na intensidade das principais preocupações dos brasileiros, com a corrupção voltando a ganhar espaço e a segurança pública mantendo a liderança, apesar do recuo mensal. Crime e violência é apontado por 46% da população, queda de 6 pontos percentuais em relação a setembro, mas ainda 6 pontos acima do registrado em outubro de 2025. Corrupção política e financeira sobe 3 pontos no mês, alcança 38% e assume a segunda posição, embora permaneça 1 ponto abaixo do patamar de um ano atrás. Pobreza e desigualdade social aparece em terceiro lugar, com 33%, sem variação mensal ou anual. Saúde recua 5 pontos no mês, para 31%, e impostos permanecem em 26%, estáveis em relação a setembro e 3 pontos abaixo de outubro de 2025. Assim, embora os cinco temas permaneçam no grupo das principais preocupações, há uma mudança na hierarquia: a corrupção avança, enquanto a saúde perde espaço no ranking.
O trabalho de campo ocorreu entre 25 de setembro e 9 de outubro, na reta final da campanha eleitoral e atravessando o primeiro turno das eleições, realizado em 4 de outubro. Nesse período, a segurança pública ganhou destaque na disputa presidencial, com diferenças entre os candidatos sobre o enfrentamento às facções criminosas, ao crime organizado e à violência urbana. A corrupção também esteve presente no debate eleitoral, tanto nas propostas de combate ao problema quanto nas disputas políticas relacionadas a casos concretos. O Banco Master foi um desses focos: o caso já havia chegado à propaganda eleitoral e, em 24 de setembro, na véspera do início da coleta, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, determinou que a Polícia Federal investigasse possíveis irregularidades na atuação da Comissão de Valores Mobiliários relacionadas ao banco. Nesse contexto, crime e violência permaneceu como a principal preocupação dos brasileiros, com 46% das menções, enquanto a corrupção política e financeira avançou três pontos percentuais em relação a setembro, alcançando 38%. Embora os dados não permitam atribuir essas percepções à campanha eleitoral ou a episódios específicos, o contexto ajuda a situar os resultados em um período no qual segurança pública e corrupção estiveram presentes no debate político nacional.
A comparação com outubro de 2022, outro período de intensa disputa eleitoral, revela uma transformação importante na percepção dos brasileiros. Naquela edição, pobreza e desigualdade social liderava as preocupações, com 46%, seguida por saúde e crime e violência, ambos com 35%. Corrupção política e financeira aparecia em quinto lugar, com 29%. Quatro anos depois, crime e violência chega a 46%, um avanço de 11 pontos percentuais, enquanto a corrupção alcança 38%, 9 pontos acima do resultado de 2022. Em sentido oposto, pobreza e desigualdade social recua 13 pontos, para 33%, e saúde cai de 35% para 31%. A fotografia atual, portanto, mostra uma agenda em que a segurança pública e a integridade das instituições ocupam posições mais centrais, enquanto a preocupação com pobreza e desigualdade, embora ainda relevante, aparece em um patamar inferior ao observado naquele momento.
A percepção sobre o rumo do país também permite uma comparação direta entre os dois períodos eleitorais e oferece um contexto relevante para acompanhar indicadores como a confiança do consumidor. Em outubro de 2026, 39% dos brasileiros acreditam que o país está na direção certa, avanço de 3 pontos percentuais em relação a setembro, mas recuo de 2 pontos na comparação anual. Em outubro de 2022, esse percentual era de 33%, uma diferença positiva de 6 pontos em quatro anos. Apesar da melhora em relação àquele período, a avaliação segue predominantemente negativa: 61% consideram que o Brasil está no rumo errado. O dado sugere que a melhora relativa na percepção sobre a direção do país não elimina a insatisfação da maioria, em um cenário no qual as preocupações com segurança e corrupção continuam elevadas. Como as duas ondas foram realizadas durante períodos eleitorais, o paralelo é especialmente útil para observar como as prioridades e as expectativas da população se modificaram ao longo de quatro anos, sem pressupor que o calendário político, por si só, explique os resultados.
No cenário global, as principais preocupações permanecem relativamente estáveis. Inflação e crime e violência dividem a liderança, ambos com 31%. A inflação avança 2 pontos percentuais em relação a setembro e fica 1 ponto acima de outubro de 2025, enquanto crime e violência recua 1 ponto no mês e 2 pontos na comparação anual. Pobreza e desigualdade social e desemprego aparecem empatados, com 29% cada; o primeiro tema permanece estável no mês e 1 ponto acima do ano anterior, enquanto o desemprego não varia mensalmente e também avança 1 ponto em 12 meses. Corrupção política e financeira completa o grupo das cinco principais preocupações, sem alteração nas comparações mensal e anual. O conjunto indica a permanência de uma agenda global concentrada em questões econômicas e sociais, sem mudanças expressivas na hierarquia dos temas mais citados.
Entre os destaques internacionais, nos Estados Unidos a inflação permanece como principal preocupação, com 42%, queda de 3 pontos percentuais em relação a setembro, mas alta de 5 pontos na comparação anual. A percepção de que o país está no rumo certo é de 25%, queda de 2 pontos no mês e de 13 pontos em 12 meses. Na Argentina, o desemprego permanece como principal preocupação, com 57%, apesar do recuo mensal de 4 pontos, e segue 8 pontos acima do registrado em outubro de 2025. A avaliação sobre o rumo do país melhora 6 pontos no mês, alcançando 45%, mas ainda fica 1 ponto abaixo do patamar de um ano atrás. Na França, a inflação sobe 6 pontos percentuais no mês e chega a 39%, 10 pontos acima de outubro de 2025. Já a percepção de que o país está no rumo certo cai para 7%, recuo de 4 pontos no mês e de 1 ponto na comparação anual. Durante o período de coleta, a inflação anual francesa também voltou a acelerar nas estimativas preliminares, de 2,4% em agosto para 3% em setembro, impulsionada principalmente pelos preços da energia.
Os resultados de outubro mostram que a mudança mais relevante no Brasil não está em uma ruptura da agenda de preocupações, mas no peso relativo que cada tema ocupa. A queda mensal de crime e violência não altera sua liderança, enquanto a corrupção ganha espaço e a saúde perde posição. A comparação com outubro de 2022 torna essa transformação mais evidente: a segurança pública e a corrupção apresentam hoje maior peso entre as preocupações, enquanto pobreza e desigualdade recua em relação àquele período. No indicador de rumo, o Brasil registra uma avaliação melhor do que há quatro anos, mas a maioria da população ainda considera que o país está na direção errada. Essa combinação mostra que uma melhora relativa nas expectativas sobre o país pode coexistir com preocupações persistentes sobre seus problemas estruturais.