Violência e pobreza recuam, mas clima e impostos ganham espaço nas preocupações do brasileiro

Levantamento aponta ajuste de expectativas no fim do ano: enquanto temas urgentes arrefecem, pautas tributária e ambiental se consolidam no radar da população.

A edição de dezembro do Ipsos What Worries the World aponta para um ajuste na hierarquia das preocupações dos brasileiros no fechamento do ano. Sem movimentos abruptos, a pauta ambiental ganha visibilidade de forma gradual: a preocupação com mudanças climáticas chega a 14% em dezembro, com alta de dois pontos percentuais em relação a novembro. Ainda distante do topo do ranking, o dado indica que o tema começa a se consolidar no radar da população, impulsionado pela maior presença da agenda climática no debate internacional após os desdobramentos da COP30.

Ao mesmo tempo, observa-se um arrefecimento das preocupações que haviam disparado no mês anterior. No Brasil, crime e violência seguem como a principal preocupação (45 p.p), mas recuam sete pontos percentuais em relação ao mês passado. A queda reforça a leitura de que a escalada registrada anteriormente foi impulsionada por ações pontuais de grande visibilidade, como operações contra o crime organizado, que concentraram a atenção da opinião pública naquele momento.

O mesmo movimento é observado na preocupação com pobreza e desigualdade social (31 p.p), que também recua sete pontos em dezembro. O dado sugere uma acomodação do debate após semanas em que o tema esteve no centro das discussões políticas e econômicas. Ainda assim, chama atenção a evolução da preocupação com impostos no Brasil, que acumula alta de cinco pontos percentuais nos últimos 12 meses. Esse movimento parece estar ligado à maior visibilidade do tema ao longo de 2025, especialmente com o avanço das discussões sobre a reforma tributária, a regulamentação de seus principais mecanismos e os impactos práticos que a população e as empresas começam a tentar antecipar. Mesmo sem um salto expressivo em dezembro (+2 p.p), a trajetória ao longo do ano indica que a pauta tributária segue sensível para a população.

A percepção sobre o rumo do país apresenta uma leve melhora, com um avanço de um ponto percentual entre os que acreditam que o Brasil está no caminho certo. Embora tímida, essa variação indica um ajuste de expectativas no fechamento do ano, mais associado a uma estabilização do humor do que a uma virada consistente de cenário.

No recorte internacional, os dados seguem mostrando movimentos distintos entre os países. Nos Estados Unidos, a inflação (41 p.p) continua liderando o ranking de preocupações, refletindo um custo de vida ainda pressionado, mesmo com sinais de desaceleração. Na França, apesar da queda de seis pontos percentuais na preocupação com impostos, o humor segue profundamente negativo: o país continua registrando o pior indicador de rumo entre os pesquisados, com ampla maioria da população (90%) acreditando que a França está no caminho errado. Já na Argentina, o mês indica uma leve piora na percepção sobre os rumos do país, com recuo de dois pontos percentuais entre os que acreditam que a Argentina está seguindo na direção certa, reforçando um cenário ainda marcado por incertezas.

Os dados de dezembro indicam menos uma virada e mais um ajuste de expectativas. As preocupações seguem elevadas, mas mudam de peso conforme o noticiário e o contexto internacional, reforçando um cenário de instabilidade que deve continuar moldando o humor da população.

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