Relatório de Transição Energética
Pesquisa mostra que, se por um lado há um reconhecimento massivo sobre a importância da transição para uma matriz energética mais limpa e renovável, por outro, a disposição para arcar com os custos dessa mudança é baixa, especialmente diante da insatisfação generalizada com o preço considerando a qualidade do serviço atual.
O levantamento revela que, embora 93% da população considere muito importante ou importante a transição da energia para fontes renováveis, 78% estariam pouco ou nada dispostos a pagar mais caro na conta de luz para garantir essa transição; 19% se dizem muito dispostos a arcar com um custo maior. Nesse mesmo contexto, 71% acham o valor mensal da conta de luz muito alto ou alto frente à qualidade do serviço, percepção agravada pela frequência de quedas de energia, que atingiram 73% dos lares nos últimos três meses.
A preocupação com a sustentabilidade é relativamente mais acentuada nos segmentos de maior renda e escolaridade. A geração de energia limpa é vista como muito importante por 71% dos brasileiros com renda familiar acima de 5 salários mínimos, um índice que cai para 45% entre aqueles com renda de até 1 salário mínimo (uma diferença de 26 pontos percentuais). Da mesma forma, 68% dos entrevistados com ensino superior dão muita importância ao tema, contra 44% entre os que têm ensino fundamental. Regionalmente, o Sudeste (65%) se destaca como a região que mais valoriza a energia limpa, em contraste com o Sul e o Nordeste, onde o percentual de muito importante é de 51% e 48%, respectivamente.
Pergunta: O quanto o(a) sr(a) considera importante que a energia elétrica no Brasil seja gerada a partir de fontes mais limpas e renováveis? (Estimulada - %)

Apesar de considerarem a transição energética importante, somente 19% estariam dispostos a pagar mais caro para garantir que a energia viesse de fontes mais limpas e renováveis, ao passo que 35% estariam pouco dispostos e 43% nada dispostos a pagar mais caro na conta de luz para garantir tal transição; entre os menos instruídos, 50% se dizem nada dispostos a pagar mais caro para ter uma energia mais limpa. Os que não opinam a respeito somam 3%.
Pergunta: Pensando na sua conta de luz, o(a) sr(a) estaria muito disposto(a), um pouco disposto(a) ou nada disposto(a) a pagar mais caro para garantir que a energia viesse de fontes mais limpas e renováveis? (Estimulada - %)

A resistência em pagar mais pela energia elétrica está diretamente ligada à percepção sobre o serviço atual. Para 71% dos brasileiros, o valor da conta de luz que chega todo mês é considerado muito alto (36%) ou alto (35%) em relação à qualidade do fornecimento; percepção que é mais crítica (77%) entre os moradores das regiões metropolitanas, as chamadas periferias e no Sudeste, visto que 75% consideram muito alto ou alto, na comparação com o Nordeste, onde o mesmo indicador recua para 65%. Ainda nessa pergunta, 22% acham justo o valor da conta de luz, para 4% é baixo, para 1% muito baixo e somam 2% os que não sabem ou preferem não responder ao questionamento.
Pergunta: Na sua opinião, o valor mensal da conta de luz que você paga atualmente é muito alto, alto, justo, baixo ou muito baixo em relação à qualidade do serviço de fornecimento de energia elétrica que o(a) sr(a) recebe? (Estimulada - %)

A pesquisa revela que a experiência com quedas de energia é uma realidade para a maioria: 73% dos entrevistados relatam pelo menos uma interrupção no fornecimento nos últimos três meses, sendo que 13% vivenciaram tal situação 1 vez, 30% de 2 a 3 vezes, 15% entre 4 e 5 vezes e outros 15% relatam falta de luz 6 vezes ou mais no período.
A percepção sobre o valor da conta de luz é mais crítica entre os que sofrem com a instabilidade do sistema. A relação entre a má qualidade do serviço prestado e a percepção de preço alto é evidente: entre os que enfrentaram mais de 4 quedas de energia no período, o percentual dos que acham o valor da conta de luz muito alta dispara para 46% (são 36% no total da amostra), representando uma diferença de 16 pontos percentuais em relação aos que não tiveram nenhuma interrupção (30%).
A desigualdade territorial também marca a qualidade do serviço. Moradores das regiões metropolitanas (periferia) são os que mais sofrem: 85% relatam quedas de luz nos últimos três meses, contra 78% entre os moradores das capitais e 70% do interior. Ainda, os brasileiros com menor renda familiar – até 1 salário mínimo – são os que mais sofreram com a queda de luz no período (80%).
Pergunta: Nos últimos 3 meses, aproximadamente, quantas vezes faltou luz na sua residência, mesmo que só por alguns minutos? (Estimulada - %)

Quando a luz acaba, a espera é longa para a maioria. Para 53% dos afetados, o serviço tende a demorar mais de uma hora para ser restabelecido, com 29% aguardando entre mais de 1 até 3 horas, 14% entre mais de 3 até 5 horas e 10% chegando a ficar mais de 5 horas sem energia. Para 40%, a espera é de até 1 hora.
A espera de mais de uma hora para o restabelecimento da energia é mais significativo para os moradores da região Sudeste (58%), do que entre aqueles que vivem nos estados do Norte/Centro-Oeste (46%). E chega a até 60% entre aqueles que relatam mais de 4 quedas de energia nos últimos 3 meses.
Pergunta: (para quem disse que faltou energia nos últimos três meses) Quando falta luz na sua casa, geralmente dura quanto tempo? (Estimulada - %)

"A pesquisa revela um dilema central para o futuro energético do Brasil: há um consenso sobre a importância e necessidade de uma matriz mais limpa, mas essa convicção esbarra na realidade econômica da população. O consumidor, que já sente o peso da conta de luz no orçamento e sofre com a instabilidade do serviço, não se mostra disposto a arcar com custos adicionais, mesmo que seja por uma causa nobre. Isso sinaliza que qualquer política de transição energética precisa vir acompanhada de garantias de que não haverá um repasse de custos direto e pesado para o cidadão comum.", analisa Marcia Cavallari, head da Ipsos-Ipec.
Sobre a Pesquisa
Pesquisa quantitativa realizada a partir de entrevistas pessoais e domiciliares, com o objetivo de levantar a opinião dos brasileiros sobre a transição energética. O levantamento aconteceu entre os dias 5 e 9 de fevereiro de 2026, quando foram realizadas 2000 entrevistas, em 129 municípios brasileiros. A amostra foi elaborada com base em dados do Censo 2022 e PNADC 2024, com controle de cotas pelas variáveis sexo, idade, escolaridade, raça/cor e ramo de atividade. O nível de confiança da pesquisa é de 95%, e a margem de erro máxima estimada para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.