O que vem depois do emagrecimento? Os novos desafios da manutenção do peso
A jornada de emagrecimento se torna palco de informações e discussões constantes à medida que ferramentas terapêuticas, como os agonistas de GLP-1 (canetas emagrecedoras), se tornam mais acessíveis e populares. Dentro desse contexto, há observações relevantes acerca do "fim" da jornada de emagrecimento, uma vez que, para muitos pacientes, alcançar o peso desejado não representa o final da jornada. Na verdade, marca o início de uma fase muito mais complexa e frequentemente inesperada.
Nesse cenário, a Ipsos apresenta uma pesquisa qualitativa aprofundada com oito mulheres adultas nos Estados Unidos, entre 36 e 71 anos, que perderam peso por meio de medicamentos GLP-1, cirurgia bariátrica ou ambos os métodos. Embora o estudo tenha sido conduzido nos EUA, os resultados apontam tendências comportamentais importantes que transcendem diferentes mercados, uma vez que a pauta do emagrecimento vem alterando dinâmicas em diversos setores, principalmente no Brasil.
A rápida adoção dos medicamentos agonistas do receptor GLP-1 e das cirurgias bariátricas minimamente invasivas tornou a perda acelerada de peso uma realidade para um número relevante de pessoas. Contudo, à medida que essa população cresce, surge uma lacuna significativa: os indivíduos permanecem despreparados para as realidades físicas, mentais e emocionais da vida após o emagrecimento. Nas entrevistas com pacientes que utilizaram GLP-1, que passaram por cirurgia bariátrica avançada ou que recorreram a ambos os métodos, surgiu um padrão recorrente: sucesso inicial seguido por desafios para os quais ninguém os preparou adequadamente.
O paradigma do tratamento da obesidade mudou profundamente. Não estamos mais apenas tentando descobrir como perder peso; precisamos compreender e atender às necessidades complexas que surgem após a perda de peso.
Esse novo momento ocorre quando a intervenção termina e o paciente descobre que:
- Manter os resultados é mais difícil do que emagrecer: pacientes que interromperam o uso de medicamentos GLP-1, seja por decisão própria ou por questões de acesso ao tratamento, relataram recuperação perceptível do peso em um ou dois meses, mesmo mantendo os hábitos alimentares e a prática de exercícios adotados durante o tratamento.
- O corpo muda de formas inesperadas: a rápida perda de peso deixou muitas participantes com excesso de pele, resultando em desconforto físico e sofrimento relacionado à imagem corporal.
- O trabalho psicológico de habitar uma nova identidade está apenas começando: muitos relataram dificuldade em reconciliar quem eram antes com quem são agora. Ao olhar fotografias antigas, frequentemente expressavam incredulidade em vez de orgulho.
Saúde mental: fator fundamental para a estruturação do acompanhamento da jornada de perda de peso
Para a maioria dos pacientes, o trabalho psicológico começa exatamente quando o trabalho clínico termina.
Em pesquisas de monitoramento de saúde realizadas anualmente pela Ipsos, observamos que a preocupação com a saúde mental vem aumentando de forma significativa nos últimos três anos, demonstrando como esse tema impacta diferentes aspectos da vida das pessoas e possui características multifatoriais.
Ao observarmos a importância desse contexto ao longo da jornada de emagrecimento, especialmente no período de manutenção dos resultados, identificamos um reforço importante do papel da saúde mental para esses perfis de pacientes. O olhar específico para essa questão pode ser uma peça-chave para o cuidado integral, abrangendo o acompanhamento antes, durante e após o tratamento, com direcionamento personalizado para indivíduos que podem enfrentar desafios como mudanças de identidade e distorção da imagem corporal, fatores que podem influenciar, inclusive, as dinâmicas sociais.
Quatro pilares para entender o futuro do cuidado pós-emagrecimento
O processo de perda de peso envolve diversos fatores na vida de um paciente, como tempo, investimento financeiro, mudanças de hábitos, reeducação alimentar e readaptação social. O verbatim retirado das entrevistas com as pacientes, "Eu passei meses, tempo e dinheiro para perder peso. Não quero recuperá-lo. Caso contrário, qual foi o sentido de tudo isso?", evidencia esse cenário de investimento multifacetado que existe por trás da dinâmica de perda de peso.
Dentro desse cenário, ao analisarmos as constantes mudanças relacionadas a essa revolução no tratamento da obesidade, que impacta diferentes aspectos da vida dos indivíduos e cujos efeitos ainda estão sendo descobertos por meio dos relatos de pessoas que passaram por essa jornada, é possível elencar quatro pilares de direcionamento.
1. Evolução contínua do cuidado multidisciplinar
O gerenciamento sustentável do peso exige uma equipe integrada composta por nutricionistas, profissionais de educação física, psicólogos, psiquiatras, cirurgiões plásticos e dermatologistas.
2. Expectativas como padrão clínico
Os profissionais envolvidos nesse processo devem discutir desde o início temas como o excesso de pele, a necessidade de manutenção metabólica, os ajustes psicológicos e as mudanças nos relacionamentos.
3. Colaboração entre setores
Dentro de um cenário interconectado ao longo da jornada de emagrecimento, existe uma oportunidade importante de integração entre a indústria farmacêutica, saúde digital, nutrição, bem-estar, cosméticos e suplementação.
4. Inteligência adaptativa de mercado
Com a rápida evolução desse mercado, impulsionada, inclusive, pela disseminação acelerada de informações, torna-se essencial monitorar continuamente: mudanças de comportamento, novas demandas dos pacientes e lacunas emergentes de cuidado.
Mais do que perder peso, é preciso aprender a viver com a mudança
A jornada do emagrecimento não termina quando a balança indica a meta alcançada. Na verdade, esse momento pode revelar o surgimento de novos desafios relacionados à manutenção metabólica, à saúde mental, à imagem corporal e à qualidade de vida. Por isso, dentro de um cenário interconectado, é fundamental que esses elementos não sejam analisados de forma isolada.
Sob uma perspectiva mais direcionada à saúde desses pacientes, a mensagem de que o futuro do tratamento da obesidade não está apenas em ajudar o paciente a perder peso, mas também em garantir que ele consiga viver bem após essa conquista pode orientar um olhar estratégico para o desenvolvimento e a adaptação de tratamentos, serviços e produtos cada vez mais segmentados.
Em resumo, o verdadeiro sucesso não está apenas em perder peso. Está em transformar a perda de peso em ganho de vida de forma saudável, sustentável e duradoura.
Este artigo foi publicado originalmente no Guia da Farmácia
Escrito por Amanda Sousa, gerente de Healthcare na Ipsos no Brasil
Essa necessidade de olhar para além da perda de peso também aparece nos dados da pesquisa Health Monitor 2025 da Ipsos. No Brasil, 52% das pessoas apontam a saúde mental como uma das principais preocupações de saúde do país, percentual que coloca o tema à frente de diversos desafios tradicionalmente associados à saúde física. Além disso, 39% dos brasileiros afirmam ter vivido, várias vezes ao longo do último ano, situações de estresse a ponto de sentir que não conseguia lidar com as coisas, enquanto 37% relatam ter se sentido deprimidos por períodos prolongados. Os resultados reforçam que o acompanhamento de pacientes em jornadas de emagrecimento deve considerar não apenas os desfechos físicos, mas também aspectos emocionais e psicológicos fundamentais para a manutenção dos resultados e para a qualidade de vida. Os dados são da pesquisa Ipsos Health Monitor 2025.