Pesquisa sobre a qualidade de vida em 10 capitais

Maioria dos moradores de 10 capitais brasileiras mudaria para outra cidade; segurança é apontada como o principal problema

A Pesquisa Viver nas Cidades: Qualidade de vida é uma realização do Instituto Cidades Sustentáveis, em parceria com o Sesc-SP, e foi executada pela Ipsos-Ipec entre 2 e 27 de dezembro de 2024. Na ocasião foram realizadas 3.500 entrevistas de forma online, distribuídas entre as cidades de Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.

A pesquisa revela um quadro desafiador sobre a qualidade de vida em dez das principais capitais brasileiras. Embora a percepção sobre o tema se concentre em estabilidade ou melhora, a maioria (67%) dos moradores diz que mudaria de cidade se tivesse oportunidade. A Segurança Pública é apontada como o problema mais grave por 74% dos participantes, e o conjunto das dez administrações municipais é avaliado como regular ou negativo, quase que nesta mesma proporção.

A percepção sobre a qualidade de vida nos últimos 12 meses é equilibrada entre melhora e estabilidade: 36% sentiram uma melhora, enquanto 37% consideram que ficou estável. Os que notaram piora são 25%. O otimismo é mais acentuado em capitais do Norte e Nordeste, com destaque para Manaus (48%), Belém (46%), Fortaleza (46%) e Salvador (45%). Em contrapartida, os maiores centros urbanos do país registram o menor patamar de respostas, com 31% dos paulistanos e 33% dos cariocas relatando melhora.

Desejo de partir e os problemas que afligem as cidades

O desejo de deixar a cidade onde vivem é um dos dados mais relevantes da pesquisa. No total, dois em cada três internautas dizem que se mudariam para outro município, caso pudessem. Esse sentimento é ainda mais forte no Rio de Janeiro e em Manaus, onde 75% expressaram essa vontade. Já em Goiânia e Fortaleza são 53% e 55%, nessa ordem, os que considerariam uma mudança. O levantamento mostra que o percentual dos que desejam sair sobe para 76% entre aqueles que perceberam uma piora na qualidade de vida no último ano.

A Segurança Pública lidera a lista de preocupações, sendo citada como o principal problema da cidade onde moram por 74% da amostra total. A situação é mais crítica no Rio de Janeiro (89%), Salvador (85%) e Fortaleza (83%). A Saúde aparece como o segundo maior problema, com 37% das respostas. A exceção notável é Goiânia, única capital onde a Saúde (51%) foi mais citada que a Segurança (23%) como o principal desafio local. Outros problemas se destacam regionalmente, como o Transporte Coletivo em Belo Horizonte (34% contra 16% no total da amostra) e as Enchentes em Porto Alegre (42% ante 11% no conjunto de todas as capitais).

Avaliação da gestão pública: descontentamento e falta de transparência

As administrações municipais foram avaliadas de forma majoritariamente regular (39%) ou ruim/péssima (37%), ao passo que 20% avaliam positivamente (ótima/boa).

  • Destaque positivo: Recife se sobressai com a melhor avaliação positiva, onde 47% dos internautas consideram a gestão como ótima ou boa.
  • Destaque negativo: Goiânia apresenta o pior cenário, com 64% avaliando como ruim ou péssima.

A criticidade se estende à transparência: 83% dos internautas consideram a administração de sua cidade pouco ou nada transparente. Essa percepção é ainda mais forte em Goiânia (89%) e São Paulo (86%).

A avaliação da atuação da Câmara dos Vereadores também é negativa no conjunto das capitais. Para 51% a atuação é ruim ou péssima, 32% como regular e 8% como ótima ou boa. A exceção é observada em Recife, Salvador e Porto Alegre nas quais o número de pessoas que considera como regular e ruim/péssima aparece na mesma proporção.

Confiança nas instituições: igreja e empresas se destacam

Quando questionados sobre quais instituições mais contribuem para a qualidade de vida, a Igreja lidera no geral (19%), seguida por empresas privadas/empresários e a prefeitura (15%, cada) e, em terceiro lugar, as ONGs e as associações do bairro (13%, cada uma). No entanto, o cenário varia consideravelmente entre as capitais, com as seguintes instituições no topo do ranking:

  • A Igreja em Manaus, Fortaleza, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
  • O Governo Estadual em Belém e Goiânia.
  • A Prefeitura em Recife e Salvador.
  • As Empresas privadas em Porto Alegre.
  • As ONGs em São Paulo.

Já a confiança em figuras e instituições políticas não é expressiva. Deputados Federais e Senadores possuem os piores índices de confiança, 9% e 8%, respectivamente. Ainda que baixa, a confiança no Presidente da República é mais acentuada em Belém (29%, ante 21% registrado no total da amostra), ao passo que em Recife é um pouco maior a confiança nos representantes de ONGs (28%, ante 21% registrado no total da amostra) e em Porto Alegre, 25% dos internautas confiam nas empresas/empresários (somam 16% no total da amostra).

"Este estudo revela uma radiografia da vida urbana no Brasil. Ao mesmo tempo em que uma parcela da população, especialmente no Norte e Nordeste, percebe uma melhora em sua qualidade de vida no último ano, a maioria considera deixar suas cidades. A pesquisa reflete a crise na segurança pública, área que surge como o problema mais visível nas principais capitais do país, uma percepção regular ou negativa das administrações municipais, a ideia de que são pouco transparentes, além do descrédito generalizado nas instituições políticas tradicionais. Nesse cenário, os cidadãos se voltam para atores que sentem mais próximos de seu dia a dia, como igrejas, ONGs e a iniciativa privada, buscando neles o apoio que não encontram no poder público para a efetiva melhoria de suas vidas”, afirma Patricia Pavanelli, Diretora de Opinião Pública e Política da Ipsos-Ipec.

Falta de memória eleitoral

A pesquisa também investigou a memória eleitoral dos internautas. Considerando que o estudo foi realizado no mesmo ano da eleição municipal, a maioria dos entrevistados (56%) se recorda em quem votou para vereador(a) em 2024. Essa lembrança é mais forte em capitais como Belém (65%), Manaus (63%), Porto Alegre (63%) e Belo Horizonte (62%).

Entretanto, o mesmo não ocorre com os cargos legislativos da eleição de 2022. A recordação do voto é significativamente menor para deputado federal (40%), estadual (39%) e senador (38%). Regionalmente, a lembrança do voto para deputado federal se destaca em Belo Horizonte (50%), enquanto os eleitores de Porto Alegre (48%) são os que mais se recordam do voto para senador.

Desinteresse político-social

O levantamento também mediu a participação cívica e encontrou um cenário de forte desengajamento. Uma parcela expressiva (62%) dos participantes declara não ter "nenhuma vontade" de se envolver na vida política de sua cidade, enquanto pouco mais de um terço (34%) manifesta algum grau de interesse, somando os que têm "muita vontade" (8%) e "alguma vontade" (26%). Notavelmente, este sentimento de apatia é um fenômeno generalizado e consistente: a pesquisa aponta que não há diferenças estatisticamente significativas entre as dez capitais, indicando que o baixo interesse na participação política é uma realidade nacional, e não um problema isolado.

Sobre a Pesquisa

A Pesquisa Viver nas Cidades: Qualidade de Vida é uma realização do Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Sesc-SP, executada pela Ipsos-Ipec. Foram realizadas 3.500 entrevistas de forma online com internautas de 16 anos ou mais, de todas as classes sociais (ABCDE), residentes em 10 capitais brasileiras: Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. A coleta dos dados aconteceu de 02 a 27 de dezembro de 2024.

A amostra foi elaborada com base em dados do Censo 2010, PNADC 2022 e dados do Ipec Inteligência, com controle de cotas pelas variáveis sexo, idade, classe social e ocupação. O nível de confiança da pesquisa é de 95%, e a margem de erro máxima estimada para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

Realizada no âmbito do Programa Cidades Sustentáveis, a pesquisa conta com o cofinanciamento da União Europeia, como parte do “Programa de fortalecimento da sociedade civil e dos governos locais para a implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS)”. O projeto tem como parceiros institucionais a Frente Nacional dos Prefeitos e Prefeitas (FNP) e a Estratégia ODS.

Sobre o Instituto Cidades Sustentáveis

O Instituto Cidades Sustentáveis (ICS) é uma organização da sociedade civil criada em 2007, com o objetivo de fortalecer as instituições públicas e a democracia, bem como promover o debate sobre o enfrentamento das mudanças climáticas. Produze conteúdos, metodologias e ferramentas de apoio à gestão pública municipal e ao desenvolvimento de projetos em rede, utilizando como base indicadores de desempenho nas diversas áreas de atuação da administração pública.

A atuação do ICS envolve também a articulação, mobilização e sensibilização de gestores públicos municipais para a implementação de políticas públicas que promovam a melhoria da qualidade de vida da população em seus variados aspectos. Esse trabalho é desenvolvido em duas frentes: a Rede Nossa São Paulo, com foco na capital paulista; e o Programa Cidades Sustentáveis, de âmbito nacional, voltado para todos os municípios brasileiros.

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