Polarização, Desafios de Governabilidade e o Voto de 2026
O Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral presidencial em um estado de tensão que se estende desde as eleições de 2022. A metáfora de “dois Brasis” nunca pareceu tão concreta, com a polarização ideológica e afetiva entre o campo liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o campo conservador, majoritariamente alinhado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), definindo não apenas a política, mas também as relações sociais e familiares. A eleição de 2026 não será apenas uma escolha entre os candidatos ou projetos de governo, mas um referendo sobre os rumos de um país marcado por uma polarização político-ideológica, a fragilidade de uma democracia não consolidada, de desafios econômicos persistentes e uma complexa relação de forças entre os Poderes da República. Este artigo se propõe a analisar o cenário que se desenha para o próximo pleito, organizando a reflexão em torno dos eixos que definem a conjuntura nacional: a fratura social exposta pela polarização, as dificuldades do atual governo em implementar sua agenda, as angústias da população, o fortalecimento da direita e a crise institucional latente na relação entre o Executivo e o Legislativo (e este último também com o Judiciário). Ao final, buscaremos traçar os possíveis caminhos para onde o Brasil se dirige, considerando as consequências de uma vitória da direita ou de uma recondução da esquerda, e o que o futuro nos reserva independentemente do resultado nas urnas.
O BRASIL DE HOJE: UM RETRATO DA CRISE E DA INSATISFAÇÃO
UM PAÍS DIVIDIDO: A NATUREZA DA POLARIZAÇÃO BRASILEIRA
década, sob o signo da polarização. No entanto, é fundamental qualificar esse fenômeno. Estudos acadêmicos indicam que a polarização no Brasil é mais “afetiva” do que puramente “ideológica”. Isso significa que a divisão não se dá tanto pela distância programática entre as propostas de esquerda e direita, mas pela forte identidade e pelo sentimento de pertencimento a um grupo (o “nós”) e, principalmente, pela rejeição e hostilidade ao grupo adversário (o “eles”).
Essa polarização afetiva se manifesta de forma mais intensa com relação às lideranças políticas fortes, como Lula e Bolsonaro, do que aos partidos em si. A identidade e a emoção têm dominado o ambiente da política, deixando delado a racionalidade e até a ideologia.
Estudos recentes mostram a persistência dessa percepção de divisão, assim como as consequências que ela traz para a democracia e para as relações pessoais. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, realizada em março de 2023, mostra que 57% dos brasileiros dizem que a polarização e a radicalização trazem mais malefícios do que benefícios para o país, 58% acham que essa divisão enfraquece a democracia, 62% afirmam que empobrecem o diálogo e a relação entre as pessoas e 63% acreditam que os debates são estressantes e frustrantes para o país. Além disso, 72% se sentem incomodados com a radicalização e a polarização política na sociedade brasileira e 67% declaram que já vivenciaram alguma experiência ruim em função dessa situação. Mencionam que tiveram a relação com a família afetada, se afastaram de amigos, saíram das redes sociais, deixaram de usar certas roupas, camisas ou cores, tiveram medo de expressar suas opiniões, sofreram pressão política em determinados ambientes, tiveram depressão, mudaram de igreja, foram ameaçados, xingados ou agredidos. Apesar disso, essa fratura é estimulada por uma minoria engajada e vocal, especialmente no ambiente digital, que amplifica a sensação de conflito.
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