Pontos de vista: um olhar sobre o lado menos visível da saúde dos portugueses

No "Pontos de Vista" deste mês, Gabriela Correia, Senior Research Executive e especialista em estudos qualitativos, parte dos resultados do inquérito anual da Ipsos sobre saúde mental para lançar luz sobre uma dimensão da saúde dos portugueses que só recentemente começou a ter destaque mediático.

Profissional de saúde mental a ouvir paciente

Autores

  • Gabriela Correia Senior Research Executive
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inquérito anual da Ipsos feito para o Dia Internacional da Saúde Mental apresenta resultados que permitem ter uma ideia clara sobre o lastro deixado pela crise pandémica nas questões de saúde mental, mostrando como globalmente este tema ganhou importância, passando para o topo dos maiores problemas de saúde em cada país.

E o que nos mostram estes resultados? Do ponto de vista de quem está em Portugal, uma abordagem interessante é perceber que há naturalmente muitos aspetos que são transversais, mas há especificidades que emergem na comparação com outros países.

O que temos em comum

Independentemente do país considerado, a maioria dos os entrevistados (63%) considera que, no último ano, houve pelo menos uma ocasião em que o nível de stress teve impacto na sua vida diária, ou que se sentiu em stress ao ponto de não ser capaz de lidar com o dia a dia (59%), ou ainda que se sentiu deprimido ao ponto de se sentir triste ou desesperado todo o dia durante duas ou mais semanas (52%).

Uma análise mais fina mostra que estes sintomas afetaram mais as mulheres e os jovens com menos de 35 anos.

Estes resultados são consistentes com os de um estudo divulgado pela OMS em Março de 2022, no qual se revelava que no primeiro ano da COVID-19, a prevalência global de ansiedade e depressão aumentou 25%, sendo os jovens e as mulheres os grupos mais afetados e mais suscetíveis de desenvolver sintomas de perturbações mentais.

Por razões sociológicas e culturais, as mulheres são mais vulneráveis a perturbações como a depressão e a ansiedade

Uma explicação importante para este aumento é o stress sem precedentes causado pelo isolamento social resultante da pandemia, que levou a constrangimentos na capacidade de trabalhar, de procurar apoio de pessoas próximas e de envolvimento com a comunidade.

Este aumento na prevalência de problemas de saúde mental coincidiu também com graves perturbações dos serviços de saúde. De acordo com os dados recolhidos nos estados-membros da OMS, durante a crise pandémica os serviços de acompanhamento de perturbações mentais, neurológicas e de consumo de substâncias foram os mais afetados.

Portugal não diverge neste padrão: de acordo com as estatísticas sobre saúde publicadas em 2022 pelo INE, em 2021, 26,6% da população com 16 ou mais anos reportou ter sentido um impacto negativo na sua saúde mental provocado pela pandemia.

Os problemas de saúde mental são mais referidos pelas mulheres (30,2%) do que homens (22,4%). Por razões sociológicas e culturais, as mulheres são mais vulneráveis a perturbações como a depressão e a ansiedade – mas, pelas mesmas razões, os homens são menos propensos a admitir esses problemas e a conseguir ultrapassar o estigma que lhes é associado.

Especificidades portuguesas

Maior preocupação com a saúde mental 

Os resultados agora divulgados mostram que a saúde mental ocupa atualmente o 2º lugar nas preocupações sobre saúde. Portugal acompanha a tendência de crescente preocupação com o tema: de acordo com o Índice de Saúde Sustentável 2020/2021, os portugueses colocam as doenças relacionadas com a saúde mental no top 3 das doenças mais importantes no futuro (25%), logo atrás das doenças oncológicas (62,8%) e das cardiovasculares (26,1%). Em edições anteriores do Índice estas doenças não tinham grande expressão.

O que mais distingue Portugal? É o país em que uma maior percentagem de inquiridos declara pensar frequentemente (82%) sobre a sua saúde mental, e em que mais se considera que a saúde mental e a saúde física são igualmente importantes (88%), o que se reflete num maior grau de exigência relativamente à resposta do Serviço Nacional de Saúde relativamente a estas questões.

Mais recurso a medicação

É interessante notar que em todos países que participaram no estudo da Ipsos, falar com amigos/família sobre as preocupações com saúde mental é a primeira opção para lidar com estes problemas.  

Somos um dos países da OCDE com um consumo mais elevado de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos

É também de salientar que Portugal está entre os países em que os entrevistados mais referem o recurso a medicação para lidar com o stress e a depressão, com uma percentagem consideravelmente superior em relação a recorrer ao aconselhamento de um profissional de saúde mental (26% vs. 16%). Somos um dos países da OCDE com um consumo mais elevado de medicamentos antidepressivos e ansiolíticos, uma tendência de aumento que se verifica ano após ano. Segundo dados avançados pelo Infarmed, a propósito do Dia Internacional da Saúde Mental, só nos primeiros seis meses de 2022, venderam-se em média mais de 59.732 embalagens de ansiolíticos, sedativos, hipnóticos e antidepressivos por dia, totalizando 10.871.282, nos primeiros seis meses do ano, o que representa um aumento de 4,1% face ao período homólogo. Este aumento de consumo representa um encargo para o Serviço Nacional de Saúde de cerca de 32,5 milhões de euros. 

Considerando as grandes assimetrias regionais no acesso a cuidados públicos de saúde mental, estes dados sugerem que a maioria destes fármacos é prescrita por médicos de família. O Relatório de Primavera 2019 do Observatório Português dos Sistemas de Saúde suporta a hipótese: mais de 80% dos utentes recorre a um médico de família para consultas de saúde mental, enquanto apenas 15% recorre a médicos psiquiatras e 9% a psicólogos.

 A importância de não deixar cair o tema 

A crise pandémica acionou os sinais de alerta para a saúde mental e deu-lhe uma visibilidade nunca vista e trouxe o tema para a opinião pública.Para além do cansaço pandémico, do isolamento e do medo de uma doença desconhecida, à medida que o tempo passa, ganhamos maior consciência da importância de outros riscos psicossociais, como, por exemplo, os associados ao teletrabalho. 

Sem prevenção e tratamento eficazes, as perturbações na saúde mental podem afetar os indivíduos em qualquer idade e ter efeitos profundos na sua capacidade de realização e vida quotidiana

Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística, durante o primeiro confinamento, entre abril e junho de 2020, 23,1% da população empregada em Portugal trabalhou a partir de casa, vendo-se confrontada com a necessidade de se adaptar rapidamente a uma situação diferente daquela a que estava habituada: uma nova forma de trabalhar, com horários, ritmos e exigências igualmente distintos de tudo o que haviam conhecido, sem equipamentos adequados e com dificuldade em estabelecer limites entre vida pessoal e profissional. 

Inevitavelmente, o impacto destas mudanças na saúde mental dos indivíduos e no seu bem-estar social passou a ser um tema de debate, em especial numa altura em que se reconhecem as vantagens do trabalho remoto e se considera a possibilidade de este deixar de ser um recurso apenas em situações excecionais.

Os problemas de saúde mental resultam frequentemente de uma interação complexa de aspetos genéticos, sociais e económicos, e podem ser provocados ou agravados por fatores comportamentais e ambientais, como o abuso de álcool e drogas, pobreza, traumas, ou doença física. Algumas perturbações mentais podem afetar os indivíduos apenas durante um curto período, enquanto outras se fazem sentir durante toda a vida.

Sem prevenção e tratamento eficazes, as perturbações na saúde mental podem afetar os indivíduos em qualquer idade e ter efeitos profundos na sua capacidade de realização e vida quotidiana — no desenvolvimento social e cognitivo de crianças e adolescentes e nos seus resultados escolares; na capacidade dos adultos para serem produtivos e terem relações sociais saudáveis; na integração dos seniores na comunidade — e resultam frequentemente numa saúde física mais deficiente. 

Os dados mostram que em 2022 os indivíduos estão mais conscientes e despertos para a importância de cuidar da sua saúde mental. O desafio é não deixar que o tema perca visibilidade, conquistando mais espaço nas preocupações dos responsáveis pelas políticas de saúde e sociais.

Autores

  • Gabriela Correia Senior Research Executive

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