Previsões globais para 2023

Depois de um 2020 e 2021 muito difíceis, o mundo sentiu que 2022 foi um pouco melhor. Apesar desta perceção global de melhoria, prevalece a incerteza em relação ao futuro imediato e a longo prazo. O nosso inquérito a 36 de países confirma esta tendência: os inquiridos sentem dificuldade em ser otimistas em relação a 2023. A maioria mostra-se preocupada com a conjetura económica, o ambiente e a segurança mundial.

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Como foi 2022? Uma retrospetiva

Naquela que já é uma tradição com uma década, pedimos a mais de 24 mil cidadãos de 36 países que refletissem sobre 2022 e o ano que agora inicia. 

Depois de um 2022 ainda marcado pela COVID-19, um conflito internacional, dificuldades económicas e uma crise climática cada vez mais premente, foi unânime entre os inquiridos classificar o ano passado como desafiante. Como tem sido habitual, há uma diferença acentuada entre a forma como as pessoas sentem que 2022 as tratou a si e às suas famílias e o impacto que teve no seu país. Em média, nos 36 países, mais de metade dos inquiridos (56%) descreve 2022 como um ano mau para si e para a sua família. Já 73% consideram que foi um ano mau para o seu país. Em todo o caso, estes resultados correspondem a uma ligeira melhoria face aos de 2021, e são bastante melhores em relação ao annus horribilis de 2020, quando 90% dos inquiridos disseram que o ano foi mau para o seu país e 70% mau para si e para a sua família.

Estes resultados globais ocultam, no entanto, realidades muito distintas. Em 15 dos 36 países do estudo, mais de 80% dos inquiridos dizem que 2022 foi um ano mau para o seu país. Grã-Bretanha e Hungria, ambos com 87%, lideram a lista de países mais pessimistas. Em apenas quatro países (Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, ambos com 44%, e China e Suíça, ambos com 48%) menos de metade dos inquiridos avaliam 2022 como um mau ano. Apesar destes resultados, a tendência tende a ser positiva. A percentagem dos inquiridos que descrevem 2022 como um ano mau para o seu país é inferior à percentagem dos avaliaram negativamente 2021. 

O que podemos esperar para 2023?

Este otimismo cauteloso não se manifesta em todas as facetas da vida dos inquiridos. Em 17 perguntas sobre as quais temos registo  desde 2021, cerca de metade dos inquiridos revelam uma olhar significativamente mais pessimista sobre o que 2023 trará. O pessimismo abarca não só a a situação económica. Catástrofes provocadas pelas alterações climáticas, o uso de armas nucleares e até o impacto de asteroides e visitas de extraterrestres são também motivos de preocupação.

Economia

Globalmente, o pessimismo face ao desempenho da economia em 2023 é maior do que que 2022. Em média, apenas 46% dos inquiridos acreditam que a economia global será mais forte em 2023, em comparação com 61% do ano ano passado e 54% em 2020. A Bélgica é o país mais pessimista em matéria económica, com apenas 27% dos inquiridos a esperar ver melhorias nesse campo. A China e os Emirados Árabes Unidos são os mais otimistas, com 78% e 76%, respetivamente.

As razões deste pessimismo são evidentes. A maioria dos inquiridos do estudo receiam o aumento do custo de vida (79%), os níveis de desemprego (68%) e as taxas de juro (74%).

Quase metade dos inquiridos (46%) acredita que o seu país terá que algum tipo de resgate financeiro prestado pelo Fundo Monetário Internacional. África do Sul (78%) e Argentina (70%) são os dois países mais preocupados com esta possibilidade.

Em relação ao comportamento das bolsas de valores mundiais, metade dos inquiridos pensa que é provável que entrem em queda — um aumento significativo face a 2022, quando apenas 35% considerou esta hipótese provável. 

Segurança mundial

Em 2022, a segurança mundial foi uma preocupação mundial constante, graças à multiplicação de zonas de conflito ativo em várias regiões e aumento das tensões internacionais.

A possível escalada destes conflitos aumentou o receio de utilização de armas nucleares. Quase metade dos inquiridos (48%) considera que o uso deste tipo de armamento é um cenário provável, uma subida de 14 pontos percentuais face ao ano passado. Este receio é particularmente alto na Indonésia (69%), no Peru e na Colômbia (ambos com 62%).

O papel disruptivo da tecnologia também é reconhecido. Mais de quatro em cada 10 pessoas (44%, acima dos 38% do ano passado) dizem ser provável que hackers contratados por um governo estrangeiro provoquem o encerramento de serviços sociais ou governamentais. Quase metade avalia como provável que um programa de inteligência artificial nocivo possa causar danos significativos no seu país. Ainda assim, esta percentagem caiu de forma acentuada em relação ao período homólogo (menos 15 pontos percentuais).

Este estado global de ansiedade influenciou negativamente a hipótese de acontecimentos astronómicos catastróficos: 22% dos inquiridos acreditam que é provável o embate de asteroides na Terra em 2023 (mais de 16% do que no ano passado e 15% no ano anterior). Já 18% acham provável que o nosso planeta seja visitado por extraterrestres (mais de 14% do que no ano passado). Os indianos são os que consideram mais provável uma visita alienígena durante este ano.

Ambiente 

A maioria das pessoas em todo o mundo acredita que 2023 será palco de mais eventos das alterações climáticas. Por exemplo, 65% dos inquiridos dizem que é provável que no próximo ano se verifiquem mais fenómenos climáticos extremos no seu país. Muitos países — particularmente na Europa — estão pessimistas quanto à capacidade da tecnologia em travar as alterações climáticas. Menos de 20% das pessoas na Grã-Bretanha, França, Bélgica, Polónia, Suíça, Hungria e Roménia acreditam na invenção de uma tecnologia revolucionária que ajude a pôr cobro à crise climática. Os japoneses mostram-se igualmente pessimistas em relação a essa hipótese: apenas 14% acreditam na criação de uma tecnologia milagrosa.

Mais de metade dos inquiridos (57%) dizem que 2023 será provavelmente o ano mais quente de que há registo onde vivem, enquanto cerca de uma em cada três pessoas (36%) são ainda mais pessimistas ao afirmarem ser provável que áreas do seu país se tornem inabitáveis devido a um acontecimento climático extremo.

Mais de quatro em cada dez inquiridos esperam que uma catástrofe natural atinja uma grande cidade do seu país. Há, no entanto, uma grande variação nas respostas a esta questão. No extremo pessimista encontram-se Indonésia (78%), Turquia (66%) e Estados Unidos (65%). No outro extremo estão Irlanda (25%), Hungria e Israel (todos com 24%), Suíça e Dinamarca (ambos 23%) e Roménia (22%).

As expetativas de grandes progressos no combate às alterações climáticas são relativamente baixas: a percentagem que espera ver menos voos do que os realizados em 2019, antes da pandemia de Covid-19, desceu de 45% no ano passado para 42%. Este resultado é sem dúvida impulsionado por um desejo de retomar hábitos de viagem ao estrangeiro, agora que as regras e restrições introduzidas para tentar limitar a propagação do covid foram atenuadas em todo o mundo. Apenas cerca de um terço dos inquiridos (34%) acredita que o número de bicicletas a circular ultrapasse o número de carros na sua capital ou que se desenvolva uma tecnologia revolucionária que trave as alterações climáticas (32%).

Sociedade

Seis em cada dez inquiridos (60%) não preveem mais confinamentos motivados pelo covid no seu país durante este ano. Menos otimistas estão a China e a Coreia do Sul: cerca de metade das pessoas desses países asiáticos acredita que se vão sofrer confinamentos. Na Indonésia, a grande maioria dos inquiridos (82%) está muito confiante de que não será novamente sujeita a isolamento.

Ainda não é claro até que ponto as mudanças nos padrões laborais influenciadas pelo covid se vão manter e evoluir: apenas cerca de um em cada três inquiridos (37%) acredita que se tornará normal para as empresas do seu país implementarem uma semana de trabalho de quatro dias, durante 2023. A percentagem de inquiridos que acredita que as pessoas vão começar a viver mais em mundos virtuais mantém-se praticamente inalterada em relação ao ano passado, 56%.

Cerca de uma em cada três pessoas dizem ser provável que os cidadãos do seu país se tornem mais tolerantes, mas existem enormes diferenças entre países. Na Índia, a percentagem continua a aumentar (65% atualmente, contra 60% no ano passado). E embora ainda se mantenha baixa em França, a percentagem quase duplicou em relação ao ano passado, passando de 9% para 17%, em 2023. O Japão substituiu a França no fundo da tabela dos países do estudo, com apenas 12% dos inquiridos a acreditar que as pessoas se tornarão mais tolerantes ao longo deste ano.

Tecnologia 

Alguns inquiridos esperam que a conquista do espaço continue a ganhar destaque em 2023: cerca de metade (47%) acredita que um foguetão será lançado com destino a Marte, durante este ano. Quase quatro em 10 pessoas acham provável que surja um serviço de turismo espacial de viagens à lua.

Apenas 27% acreditam na possibilidade de um implante bem-sucedido num cérebro humano para recuperar memórias perdidas.

Panorama para 2023

Um novo ano é sempre motivo de esperança. Mesmo com toda a incerteza em torno do futuro, duas em cada três pessoas (65%) ainda acreditam que 2023 vai ser melhor do que 2022, variando entre 36% dos japoneses e 85% dos brasileiros. O otimismo dos chineses caiu de 94% em 2022 para 83% em 2023.

O otimismo em relação a 2023 caiu significativamente (mais de 10 pontos percentuais) em 24 dos 36 países do estudo. Suécia (menos 26 pontos), Itália, Dinamarca, Coreia do Sul (todos com menos 19 pontos) e Japão (menos 18 pontos) são os países onde se registaram os declínios mais acentuados. Brasil foi o único país onde os níveis de otimismo subiram, ainda que marginalmente (de 82% para 85%).

Como na maioria dos anos, três em cada quatro dos inquiridos (74%) dizem que farão, em 2023, algumas resoluções pessoais ou tendo em conta terceiros. Peru (91%), Colômbia, México (ambos com 90%) e China (89%) são os países mais empenhados em mudar em 2023. Países Baixos (45%), Japão (41%) e Suécia (35%) são os únicos países onde apenas uma minoria se comprometeu com resoluções de ano novo.


Ficha técnica

Resultados de um inquérito a 36 países, realizado de 21 de outubro a 4 de novembro de 2022 pela Ipsos na plataforma _online_ Ipsos Global Advisor. Amostra constituída por 24.471 indivíduos entre os 18 e os 74 anos nos Estados Unidos, Canadá, República da Irlanda, Israel, Malásia, África do Sul e Turquia; 20 e 74 na Tailândia; 21 a 74 na Indonésia e Singapura; e 16 a 74 nos restantes 26 países.

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