Pride 2023: 8 em cada 10 portugueses defendem a proteção da comunidade transgénero contra a discriminação

Em Portugal, 84% dos inquiridos concordam que a comunidade transgénero deve ser protegida contra a discriminação no emprego e na habitação. A opinião pública mundial também se mostra muito favorável à proteção das pessoas transgénero, mas divide-se em relação às medidas.

Ipsos | Pride 2023 | LGBT+

O mais recente inquérito Ipsos LGBT+ Pride 2023 revela que, em média, 9% dos adultos em 30 países se identificam como LGBT+. O estudo também mostra:

  • Um aumento do número de inquiridos que conhecem pessoas LGBT+ face aos resultados da edição de 2021, apesar de persistirem variações geográficas significativas;
  • Aprovação da maioria dos países da possibilidade de casais do mesmo sexo se casarem e adotarem crianças;
  • Apoio generalizado à proteção das pessoas transgénero contra a discriminação no emprego e no acesso à habitação.

Orientação sexual e identidade de género

Quando questionados sobre a sua orientação sexual, 3% dos inquiridos portugueses identificam-se como bissexuais e 2% como lésbica/gay/homossexual. Apenas 1% se identifica como pansexual e assexual.

Em termos globais, a percentagem média de indivíduos que se identifica como LGBT+ [1] é de 9%. A esse respeito, verifica-se que 3% dos adultos identificam-se como lésbicas ou gays, 4% como bissexuais, 1% como pansexuais ou omnisexuais e 1% como assexuais.

Esta percentagem de adultos LGBT+ varia consoante as gerações a que pertencem e as regiões onde vivem. Os inquiridos pertencentes à Geração Z têm uma proporção duas vezes maior de se identificarem como bissexuais, pansexuais/omnissexuais ou assexuais em comparação com os Millennials. Já em relação à Geração X e Baby Boomers, esta proporção sobe para quatro vezes.

 

Espanha (14%), Brasil (12%), Países Baixos (11%) e Reino Unido (11%) registam, face à media global, as percentagens mais altas de inquiridos que se identificam com orientações sexuais que não a heterossexual. Em Portugal, essa percentagem é de 6%.

Os homens tendem a se identificar mais como alguém que se sente sexualmente atraído por pessoas do mesmo sexo do que as mulheres (4% contra 1%, em média, a nível mundial). No entanto, ambos têm a mesma propensão para se identificarem como bissexuais, pansexuais/omnisexuais ou assexuais.

Quando questionados sobre a sua identidade de género, 1% do total dos inquiridos descreve-se como transgénero; 1% como não-binário, não-conforme ao género ou de género fluido e 1% como não se identificando com nenhuma das opções anteriores, mas também não com o género masculino ou feminino. Há diferenças significativas entre os inquiridos mais jovens e os mais velhos no que diz respeito à propensão para se identificarem desta forma. É o caso de 6% da Geração Z e 3% dos Millennials, em comparação com 1% da Geração X e dos Baby Boomers. De facto, a diferença entre gerações aumentou face ao inquérito de 2021: 2 pontos percentuais entre a Geração Z e os Millennials contra 1 ponto entre a Geração X e os Baby Boomers.

Aumento da visibilidade LGBT+, mas com diferenças geográficas

Em comparação com a edição de há dois anos, observa-se um aumento do número inquiridos que conhecem pessoas LGBT+. Em média, nos 30 países que integraram o estudo deste ano verifica-se que:

  • 47% de todos os adultos dizem ter um familiar, amigo ou colega de trabalho que é lésbica/gay/homossexual, um aumento de 5 pontos percentuais face a 2021;
  • 26% afirmam que conhecem alguém bissexual, o que representa um aumento de 2 pontos;
  • 13% dizem que conhecem alguém que é transgénero, o que se traduz num aumento de 3 pontos;
  • 12% indicam que conhecem uma pessoa não binária, não conforme com o género ou de género fluido, um aumento de 3 pontos.

Todavia, este aumento da visibilidade LGBT+ não se manifesta de igual modo em todos os países que participaram no estudo. É mais comum ter um familiar, amigo ou colega de trabalho que se identifica como lésbica/gay ou bissexual no Brasil, Chile, Colômbia, Espanha, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Em contrapartida, a visibilidade dos membros da comunidade LGBT+ é menor no Japão, na Coreia do Sul, na Turquia, na Roménia, na Hungria e na Polónia. Por cá, quase metade dos inquiridos (48%) indicou que tem um familiar, amigo ou colega de trabalho lésbica/gay ou bissexual.

As mulheres são mais propensas do que os homens a referir que conhecem pessoas com diferentes orientações sexuais e identidades de género. Em consonância com a autoidentificação, a prevalência de conhecer alguém LGBT+ é mais alta entre as faixas etárias mais jovens do que nas mais velhas. As diferenças geracionais são particularmente acentuadas quando se trata de conhecer pessoas bissexuais e pessoas não binárias/não conformes com o género ou fluidas: na Geração Z, é duas vezes mais frequente dizer-se que se conhece pessoas bissexuais do que na Geração X, e três vezes mais do que entre os Baby Boomers.

Maioria dos países apoia o casamento e a parentalidade entre pessoas do mesmo sexo

Em média, nos 30 países inquiridos, 56% concordam que deve ser permitido aos casais do mesmo sexo casar legalmente. Já 16% são favoráveis a algum tipo de reconhecimento legal, mas não ao casamento, e 14% negam a possibilidade de casais do mesmo sexo casarem ou outra forma de reconhecimento. Com 80%, Portugal e Países Baixos encabeçam a lista de países que apoiam o casamento legal entre pessoas do mesmo sexo. Nos 20 países onde o casamento entre pessoas do mesmo sexo é legal, a dimensão do apoio varia entre os 49% e os 80%. A oposição a qualquer forma de reconhecimento legal representa, no máximo, um terço de todos os inquiridos.

As mulheres apresentam uma atitude mais favorável ao casamento entre pessoas do mesmo sexo do que os homens. A nível global, a diferença de posições é de, em média, 10 pontos.

Em 2021, o apoio ao casamento entre pessoas do mesmo sexo era significativamente mais elevado em 13 dos 15 países onde a Ipsos começou a acompanhar o tema. De facto, o apoio tem vindo a estagnar ou diminuir em vários geografias. Dos 23 que a Ipsos inquiriu nos últimos dois anos, nove mostram um decréscimo de 4 ou mais pontos no apoio ao casamento legal entre casais do mesmo sexo (Canadá, Alemanha, Estados Unidos, México, Holanda, Suécia, Grã-Bretanha, Brasil e Turquia). Apenas França e Peru apresentam um aumento de igual valor.

Embora as opiniões sobre a parentalidade entre pessoas do mesmo sexo sejam mais favoráveis do que as sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo, é possível descobrir padrões de resposta semelhantes. A nível mundial, 65% dos inquiridos afirmam que os casais do mesmo sexo são tão capazes de criar filhos como outros casais. Além disso, 64% dizem que os casais do mesmo sexo devem ter os mesmos direitos de adotar crianças que os casais heterossexuais. Estas opiniões são partilhadas por 26 países, incluindo aqueles onde os casais do mesmo sexo não podem adotar crianças. Uma vez mais, Portugal surge no pelotão da frente: 77% dos inquiridos concorda ou concorda muito com o direito à adoção, e 79% acredita nas capacidades de parentalidade de casais do mesmo sexo. Polónia, Turquia, Roménia e Coreia do Sul são os únicos países onde há mais pessoas a discordar de ambas as opções.

É de salientar que, nos últimos dois anos, houve uma queda expressiva do apoio à adoção por casais do mesmo sexo na Suécia, nos EUA, no Canadá, nos Países Baixos e na Turquia. Em sentido contrário, encontram-se França, Itália, Colômbia e Peru. 

Uma vez mais são as mulheres e as gerações mais jovens que expressam maior inclinação para apoiar o alargamento dos direitos das minorias, neste caso a parentalidade entre pessoas do mesmo sexo.

Proteção contra a discriminação, sim. Medidas concretas, não tanto

No conjunto dos 30 países do estudo, 67% dos inquiridos consideram que as pessoas transgénero são vítimas de discriminação. Portugal, Colômbia, Peru lideram a lista de países onde a perceção de discriminação é mais alta, ultrapassando os 80%. Em contraste, Suíça (45%), Japão (46%) e Alemanha (47%) registam os valores mais baixos.

Esta perceção global de discriminação vem acompanhada do reconhecimento da necessidade de defender as pessoas transgénero: quase 80% dos inquiridos concorda que esta minoria deve ser protegida contra a discriminação no emprego, na habitação e no acesso a restaurantes e lojas. Em relação a Portugal, esse reconhecimento expressa-se em 8 em cada 10 participantes do estudo.

Apesar do amplo consenso contra a discriminação, quando questionados sobre medidas mais específicas, os inquiridos revelam uma postura mais moderada: em média, 60% concordam que os adolescentes transgénero devem ser autorizados a receber cuidados de afirmação do género com o consentimento dos pais; 55% concordam que as pessoas transgénero devem ser autorizadas a utilizar casas de banho públicas que correspondam ao seu género; 53% concordam que os documentos emitidos pelo governo, como os passaportes, devem disponibilizar outras opções para além de "homem" e "mulher"; e 47% concordam que os sistemas de seguros de saúde devem cobrir os custos da transição de género à semelhança de outros procedimentos médicos.

 

Entre os 30 países inquiridos, o apoio a várias medidas pró-transgénero é consistentemente elevado na Tailândia, Itália, Espanha e em toda a América Latina. O contrário se passa na Coreia do Sul, Europa de Leste, Grã-Bretanha e Estados Unidos. De resto, nessas latitudes, os direitos e a proteção das pessoas transgénero tornaram-se temas políticos polarizadores.

E como olham os portugueses para as questões trans? A hipótese de adolescentes trans poderem ser autorizados a receber cuidados de afirmação do género com o consentimento dos pais reúne 72% de concordância. As outras opções em análise — cobertura dos custos da transição de género pelos seguro de saúde (60%), uso da casa de banho com que se identificam (54%) e emissão de documentos com uma opção que não seja "masculino" e "feminino" (53%) e— apresentam resultados mais moderados.

Tal como em outras dimensões do inquérito, verificam-se diferenças de género e geracionais na perceção de discriminação de que a comunidade transgénero é alvo. As mulheres e os adultos jovens tendem a considerar mais do que os homens e os adultos mais velhos que as pessoas transgénero enfrentam muita discriminação. Os níveis mais elevados de apoio a todos os tipos de medidas a favor dos direitos das pessoas transgénero também se encontram entre mulheres e adultos mais jovens.

A falta de contato com pessoas transgénero pode ajudar a explicar o facto de a Geração X e os Baby Boomers manifestarem menor perceção de discriminação ou não terem uma opinião formada sobre questões cruciais para esta minoria.

 

Ficha técnica 

Resultados de um inquérito Ipsos a 30 países, realizado entre 17 de fevereiro e 3 de março de 2023 através da plataforma online Ipsos Global Advisor. Amostra constituída por 22.514 indivíduos entre os 18 e os 74 anos no Canadá, África do Sul, Turquia e Estados Unidos; 20 e 74 na Tailândia; 21 a 74 em Singapura; e 16 a 74 nos restantes países.


Nota 

[1] Identificar-se como lésbica/gay/homossexual, bissexual, pansexual/omnisexual ou assexual, E/OU descrever-se como transgénero, não-binário/não-conformidade de género/fluido de género, ou diferente, sem ser masculino ou feminino.

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