Predictions 2024: Portugal é o país que mais teme efeitos das alterações climáticas

Com 2023 quase no fim, é tempo de balanços e antever desafios. De acordo com o estudo Global Predictions, os portugueses olham com pessimismo para o novo ano. Economia e, sobretudo, ambiente são as áreas que motivam maiores preocupações.

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2023: tensão geopolítica e pressão ambiental

O ano que está prestes a terminar foi exigente. Perante a redução significativa dos impactos da covid, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou, em maio, o fim da emergência sanitária global. A crise sanitária deu lugar a uma escalada de tensões geopolíticas. A guerra na Ucrânia não mostrou sinais de abrandar, contribuindo para uma atmosfera de incerteza e insegurança às portas da Europa. Além disso, o regresso do conflito israelo-palestiniano no Médio Oriente agravou ainda mais o já turbulento contexto internacional.

O ano de 2023 fica também marcado pelo aumento das temperaturas médias e a ocorrência de uma série de catástrofes naturais um pouco por todo o mundo. Turquia, Síria, Marrocos e Afeganistão foram países particularmente fustigado. Estes acontecimentos ajudam a explicar a avaliação pessimista de 2023 expressa na edição mais recente do Global Predictions, o estudo da Ipsos que faz um balanço do ano e dá a conhecer as expetativas mundiais para 2024.

Os cidadãos dos 34 países que participaram no estudo consideram, em média, que 2023 foi pior para o seu país (70%) do que para si ou a sua família (53%). Apesar destes valores representarem uma melhoria de 3 pontos percentuais em relação à edição de 2022, ainda há um caminho a percorrer até o sentimento mundial retornar aos níveis pré-covid. E os portugueses? Na estreia de Portugal no estudo, oito em cada dez inquiridos consideram que 2023 foi mau para o país. Porém, o desagrado nacional decresce de modo expressivo (46%) quando está em causa o impacto no próprio inquirido ou na sua família.

Confiança mundial, pessimismo nacional

Um novo ano é sempre motivo para renovar a esperança num futuro melhor. A esse respeito, 70% dos inquiridos a nível global acreditam que 2024 será melhor do que 2023. É um valor 5 pontos acima ao de 2022, ano que registou o nível mais baixo de confiança mundial na última década. A confiança em relação ao futuro aumentou especialmente nos países europeus, sobretudo na Polónia, Espanha, Grã-Bretanha (todos com +11 pp) e Suécia (+12 pp). Estes resultados refletem os sinais de recuperação económica observados na Europa durante 2023. Em contrapartida, os portugueses mostram-se mais céticos do que a média em relação ao que 2024 reserva (66% vs. 70%). Esta relativa descrença no futuro não é acompanhada por inércia individual, já que quase nove em cada dez inquiridos lusos manifestam o desejo de realizar ações específicas para si ou para outras pessoas.

Economia

Há sinais de otimismo global em relação às perspetivas económicas mundiais. Em comparação com os resultados da edição de 2022, metade dos inquiridos acredita que a economia global terá um desempenho mais robusto em 2024 (+4pp). Apesar deste indicador positivo, 70% dos inquiridos não descartam a hipótese de a inflação e as taxas de juro aumentarem durante o próximo ano nos seus países. A confiança na atividade económica persiste nos mercados asiáticos, como a Indonésia, a Índia e a China, onde mais de 80% dos inquiridos consideram que a economia terá bons desempenhos no próximo ano.

Verifica-se igualmente uma melhoria das perceções de algumas opiniões públicas europeias sobre a economia mundial, em especial na Polónia (+20pp), Hungria (+15pp), Países Baixos (+12pp) e Grã-Bretanha (+11pp). Em sentido contrário, encontra-se Portugal: somos um dos países mais pessimistas em matéria económica (33%), apenas suplantados pelo Japão (30%). Os portugueses são dos que mais receiam o aumento dos preços mais rapidamente do que os rendimentos (90%), as taxas de juro altas (79%) e o desemprego (78%). Embora haja países que se mostrem mais apreensivos, há uma percentagem expressiva de portugueses (70%) que temem a subida da inflação em 2024.

Ambiente

O aumento da frequência de episódios climáticos graves está a deixar as populações mais ansiosas. Em comparação com o ano passado, subiu a percentagem de inquiridos (+12pp) que acreditam que os acontecimentos climáticos extremos serão mais frequentes e até colocam a hipótese do seu país ser atingido por uma grande catástrofe natural. A esse respeito, os portugueses são os mais preocupados: quase nove em cada dez acham provável que um episódio meteorológico extremo aconteça em Portugal. A unanimidade é quebrada quanto à execução de medidas para prevenir as alterações climáticas. Dois exemplos: 59% acreditam que o governo estabelecerá metas mais exigentes para reduzir mais rapidamente as emissões de carbono; e 67% esperam a introdução de restrições para reduzir a quantidade de carros.

Há outro indicador que mostra a expetativa generalizada de que os episódios extremos ligados ao clima a que temos vindo a assistir são a antecâmera do colapso climático. A nível mundial, 81% dos inquiridos preveem que as temperaturas médias globais aumentem em 2024. Os incêndios no Canadá, na Grécia ou no Havai, inundações em várias partes do globo e a temperaturas extremas sentidas durante o último verão são, certamente, aspetos que contribuíram para alimentar essa expetativa. Portugal destaca-se com 93% dos inquiridos a dar como certo o aumento das temperaturas.

Sociedade

Num mundo atravessado por conflitos geopolítico e efeitos das alterações climáticas, podem estar a despontar novas normas sociais. Os resultados globais mostram que 71% dos inquiridos contam com um aumento da imigração para os seus países. Este consenso sobre a questão migratória pode ser explicado pelos recentes acontecimentos geopolíticos e as deslocações provocadas pela crise climática e conflitos armados. Portugal lidera a lista de países que considera que o número de imigrantes vai aumentar (87%), seguido de perto por Turquia e Singapura (ambos com 82%).

O pessimismo português manifesta-se uma vez mais, agora em questões relacionadas com a igualdade de género e tolerância. Quando questionados sobre se as mulheres receberão o mesmo salário que os homens pelo mesmo trabalho, apenas 31% acreditam que tal possa vir a acontecer. Uma série de países europeus — Suécia, Hungria, Alemanha e França — acompanham a desconfiança portuguesa nos progressos da equidade laboral.

Segurança Mundial

No plano internacional, o ano de 2024 vai nascer sob o signo da incerteza. A possibilidade da reeleição de Donald Trump e o prolongamento dos conflitos na Ucrânia e em Gaza são acontecimentos com potencial para aumentar a tensão geopolítica. No que toca às eleições presidenciais norte-americanas, 36% dos portugueses julgam que Trump será o novo inquilino da Casa Branca. Com alguma surpresa, apenas 35% dos inquiridos americanos partilham da mesma opinião.

A guerra da Ucrânia, que se arrasta há quase dois anos, deverá continuar a marcar a atualidade em 2024. Quase metade dos inquiridos do estudo (47%) não acreditam que o conflito acabe tão cedo. O pessimismo é mais evidente nos países europeus, destacando-se a Suécia (-25pp face a 2022), a Polónia (-18pp) e a Espanha (-17pp). A rondar os 60%, Portugal é dos mais céticos sobre o desfecho iminente do conflito. Em sentido contrário, encontram-se países geograficamente distantes do palco das operações militares, como China (58%), Filipinas (56%) e Indonésia (55%).

Tecnologia

O mundo da tecnologia deu muito que falar em 2023, graças aos avanços notáveis que protagonizou. Isso em muito se deveu ao lançamento do ChatGPT pela OpenAI e à adesão generalizada da ferramenta. O chat conversacional foi crucial para moldar a perceção pública sobre a utilização da inteligência artificial (IA) e o modo como interagimos com a tecnologia.

De acordo com o Global Predictions, a opinião pública mundial está dividida quanto aos contributos da IA. Por um lado, 64% dos inquiridos acreditam que esta tecnologia leve à perda de postos de trabalho. Por outro, 56% acham provável que os médicos passem a recorrer à IA para decidir sobre o tratamento dos pacientes, um aumento de 18 pontos face aos valores da edição de 2019. Há, no entanto, diferenças regionais a assinalar neste equilíbrio entre o fascínio e a preocupação com as potencialidades da IA. Os países asiáticos, conhecidos pelo seu crescimento impulsionado pela tecnologia, reconhecem tanto o potencial criador como destrutivo da IA. Na China, por exemplo, enquanto 74% dos inquiridos dizem que a IA pode levar à criação de novos postos de trabalho, 70% acreditam no oposto. Portugal inclina-se mais para uma avaliação negativa da IA: 71% acreditam que a IA destruirá postos de trabalho, em contraponto com 31% que pensam o contrário. Esta preocupação com os efeitos da tecnologia também se alastra ao receio de cerca de 60% dos portugueses de ver os seus dados pessoais expostos na Internet.

A par da França, Portugal é o país europeu onde os inquiridos mais manifestam a intenção de reduzir o uso de redes sociais no próximo ano (47%). De resto, é um resultado em linha com uma tendência global de afastamento das plataformas de social media. Esta atitude pode estar relacionada com a crescente consciencialização dos efeitos negativos para a saúde mental do uso excessivo de redes sociais.


Ficha técnica

Resultados de um inquérito a 34 países realizado pela Ipsos entre 20 de outubro e 3 de novembro de 2023 na plataforma online Ipsos Global Advisor. Amostra constituída por 25.292 indivíduos entre os 18 e os 74 anos nos Estados Unidos, Canadá, Malásia, África do Sul e Turquia; 21 a 74 na Indonésia e Singapura; e 16 a 74 nos restantes 27 países.

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